5 formas de trabalho a favor de um sistema mais altruísta. #fashionrevolution

by | 24 Abr 2019

    Considerando o propósito do Fashion Revolution Day, ensaiamos algumas alternativas ao trabalho que mata e corrompe vidas para produzir blusinhas

    Dia 24 de abril é o dia que foi pensado para ser o Fashion Revolution Day. Essa data não é à toa e esse título não chegou para nos fazer repensar cores e estampas, mas sim as histórias que estamos construindo com o que vestimos.
    No dia 24 de abril de 2013, um edifício em péssimo estado que servia para sede de trabalho irregular para diversas confecções ruiu. Sua queda matou mais de mil pessoas soterradas. Pessoas que trabalhavam para produzir blusinhas, vestidos, calças e shorts ao menor custo possível. Roupas que homens, mulheres e crianças portavam ostentando marcas e lifestyle de uma forma tão ingênua quanto hipócrita.
    A verdade é que não sabíamos quem fazia as nossas roupas, nem em que condições. Víamos uma ou outra reportagem sobre pedidos de socorro embrulhados em roupas e achávamos que eram casos atípicos. Não eram.
    Então, a partir de 24 de abril de 2013, iniciou-se um movimento forte de questionamento do “quem faz a minha roupa”, “com que material”, “em que condições”. Iniciado na Inglaterra, logo essas questões ganharam o mundo. Aos poucos, muitas mentes foram entendendo que aquela forma de trabalho era completamente indigna e tirava também o glamour de quem participasse do ciclo, ainda que fosse comprando as peças sem saber como foram feitas. Saber passou a ser importante.
    Com o movimento, apareceu também o argumento do “pelo menos eles têm trabalho” ou sua versão mais elaborada: “era só isso que essas pessoas sabiam fazer, elas tinham que aceitar esse trabalho para, pelo menos, terem o que comer”. 
    Cuidado! O argumento do “pelo menos” pode ser uma consideração, mas é cruel. Quando dizemos “pelo menos” estamos aceitando as migalhas. “Veja aquele relacionamento abusivo, pelo menos não tem violência física”,”que político corrupto, desviou 200 mil dos cofres públicos, pelo menos deixou 100 mil para as escolas”. Sempre há um “pelo menos” para servir de consolo. Porém, não pode funcionar como desculpa para manter um sistema que está literalmente ruindo e acabando com vidas humanas.
    Por isso, listamos aqui algumas outras formas de trabalho, para onde as pessoas que vivem em condições muito abusivas de trabalho poderiam ser redirecionadas. Alguns trabalhos exigem mais formação, outros menos. De toda forma, para costurar também é necessário formação, então concluímos que o problema não é aprender as técnicas e sim ter acesso a outras opções de ocupação. Por que não?
    1) Triagem de lixo
    Um dos maiores problemas da nossa sociedade atual é a quantidade de lixo que produz. De forma geral, todo mundo terá que aprender a reduzir seus descartes e triar o que for descartar. Mas e o que já foi descartado? As toneladas de tecido, as toneladas de plástico, vidro, borracha etc. O mundo precisa de muitos trabalhadores dispostos a fazer essa triagem para não morrermos e nem matarmos o planeta, afogado no nosso lixo. 
    2) Análise social de decisões jurídicas
    Imagine você que a nossa justiça toma decisões e, via de regra, não acompanha o resultado depois de tal. Se um filho é separado da mãe aos 5 anos de idade, como ele estará aos seis, aos sete, ou dez anos depois? Como o juiz pode saber que está acertando nas decisões que toma a respeito da liberação de uma cirurgia ou da aplicação de uma multa para alguém que não viu a notificação da prefeitura sobre um degrau na calçada? Toda decisão merecia passar por uma análise de suas consequências, da mesma forma que passa por uma análise até ser tomada. Isso colaboraria para as próximas decisões, criando um sistema completo em que as decisões tomadas façam sentido para a sociedade. Nesse ponto, seria necessária uma grande quantidade de mão-de-obra, aliada ao acompanhamento de assistentes sociais, para realizar essa investigação, essa apuração e até para a produção dos relatórios com possíveis soluções. 
    3) Agricultores urbanos
    Não faz sentido ninguém morrer de fome a não ser que esteja perdido em alto-mar ou no meio de um deserto. Se é possível cultivar ipês, grama e pakovás pelos canteiros da cidade, é possível cultivar alimentos. Precisamos de pessoas interessadas em cultivo, em manejo da terra, em adubação e até em educação sobre agricultura, agroflorestas e agricultura urbana. Precisamos de vontade política para fazer isso funcionar e, para isso, antes precisaríamos da vontade e do interesse dos cidadãos para tal. Ipês e pakovás não seriam retirados, apenas ganhariam mais companhia verde!
    4) Cuidadores de pessoas em geral
    Falamos de fome, falamos de lixo, falamos de decisões judiciais erradas. Talvez falte abordar outro grande drama humano: a solidão. Pessoas morrem por ficarem sozinhas, por não terem com quem contar. O trabalho de cuidador de pessoas pode ser muito especializado em alguns casos (cuidador de idoso, por exemplo), mas em outros não pede tanto. Alguém para fazer uma caminhada com uma senhora sozinha que precisa conversar. Alguém para buscar uma criança na escola (à pé que seja). Alguém para ajudar a carregar compras de um supermercado. Alguém para cozinhar uma sopinha para uma mãe que está muito cansada. Outro alguém para servir um café para quem não está vivendo os melhores dias. O cuidado com as pessoas pode ser um trabalho valiosíssimo que salva vidas. 
    5) Purificação de cidades e rios
    Assim como no item 1, primeiro a sociedade terá que aprender a produzir menos lixo. Porém, como já existem impurezas nas cidades e nos rios, será necessário um trabalho contínuo de muitos para salvarmos o que ainda tem chances de sobrevivência. Além disso, essas pessoas também poderiam ser engajadas na educação da sociedade, promovendo oficinas e indicando soluções inteligentes para os desafios de crescimento urbano.
    Assim como as sugestões indicadas, também pensamos que ainda precisamos de mais gente para fiscalizar contas públicas de forma apartidária e não-governamental, precisamos de pessoas para cruzarem dados do TSE com os dados da Receita Federal. Precisamos de gente que queira ajudar na divulgação da cultura local, gente que queira criar calendários de eventos de todas as cidades, pessoas que possam trabalhar com a logística de entrega de alimentos (os produzidos pela agricultura urbana ou os que sobram de restaurantes e supermercados) para quem precisa. Também precisamos de gente que ensine mais gente a andar de bicicleta, de patinete. Acompanhantes de saidinha de banco que se disfarcem de quem realmente está saindo com dinheiro para tapear o ladrão. Pessoas que vigiem os ladrões e outras que vigiem os bancos. 
    Trabalho é o que não falta. O grande problema é o valor que damos para cada trabalho. Temos que fazer um exercício de revalorização do que conta para nós, como sociedade. Enquanto pensarmos em investir menos em educação, cultura e sustentabilidade do que em moda e ostentação, a revolução não será possível.
    #fashionrevolutionday 

     

    Diorela kelles

    Colunista

    Diorela Kelles cresceu numa grande cidade, Belo Horizonte. Lá ela aprendeu a ser comunicóloga e advogada. Mas foi numa cidade pequena, para onde se mudou aos 30 anos, que ela aprendeu mais sobre a vida em comunidade, e a importância de cuidar dos ciclos dos quais todos fazemos parte. Hoje ela escreve para unir tudo que aprendeu, tentando espalhar boas ideias e criar correntes de ações. www.escrevo.me

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