A verdadeira Saúde é a prevenção e o Bem Viver. Saiba mais sobre Saúde integrativa.

by | 16 Ago 2018

Profissionais que enxergam além do prontuário falaram de um sistema de saúde único como cada cidadão

 

 O que é saúde integrativa? Oras, todo mundo sabe o que é saúde, certo? Errado. Sempre que a nossa sociedade fala a palavra saúde, está na verdade se referindo à doença. Confundimos prevenção com realizar exames complementares ao diagnóstico. Falamos de remédios como se fossem objeto de desejo. Enfim. De uns tempos para cá os planos de “saúde” entraram em colapso e o estilo de alimentação de boa parte das pessoas virou causa de disfunções. Mas enquanto isso, profissionais fora da caixinha de últimos socorros estão pensando – e divulgando – um nova velha forma de encarar a saúde. Nova por ir de encontro com a prática que se tornou corriqueira nas últimas décadas; velha pois todos os participantes do painel falaram mais de tradição do que de inovação.

Observar, escutar, entender: essas são as ferramentas mais eficazes desses profissionais. A começar da mediadora, Deise Lopes, do Instituto Vitta, que já nos contou em vídeo algumas coisas muito importantes sobre fitoterapia e conduziu as conversas na mesa.

A Dandara Baçã, da UnB, é especializada em saúde coletiva e nos falou docemente de temas amargos como a influência do racismo, sexismo e demais preconceitos na prática de saúde. “Antes do SUS o profissional de saúde era a raizeira. Hoje, prevalesce a lógica do mercado, que é a hospitalização.” Ela ainda lembrou que às vezes a pessoa vai fazer as unhas ou procura outras formas de autocuidado para receber o carinho e a atenção de que está carente.

O Everton Santos, do Hospital São Vicente de Paulo, nutricionista e residente em saúde mental, contou sobre a experiência de cuidar de hortas como terapia para pessoas com problemas mentais. “A gente tinha medo de dar ferramentas, como pá e enxadas, na mão de doentes mentais. Mas o menor índice de suicídios acontece na horta”, ele contou. E falou para a gente do poder restaurador de cuidar da terra, comunhar com outras pessoas em meio à natureza e plantar comida no bem-estar de pessoas sob grande sofrimento psíquico.

A Maria Bezerra, guardiã da Escola de Benzedeiras de Brasília, falou sobre trazer o corpóreo à cena ao perguntar o nome da pessoa que receberá a benção. Porque é na presença do outro que a troca de energia se dá, ao contrário de alguns atendimentos de convênio em que, a gente sabe, o médico mal lê o nome do paciente na ficha e muito menos dispensa atenção.

A benzedeira provoca um suspiro de memória afetiva nos pacientes”

– Maria Bezerra

Atenção, para mim (que sou sanitarista de formação) é a palavra mágica do atendimento médico – e de qualquer relacionamento, aliás. Em uma época em que uma das doenças mais comuns é a depressão, o sofrimento físico ou psicológico pode ser (na minha opinião) uma estratégia do organismo para, justamente, clamar por atenção. Nesse sentido, as práticas integrativas se revelam eficientes não apenas pelo tratamento em si mas ao lançar o olhar sobre o outro. A benzedeira perguntando o nome, a escuta ativa, o trabalho conjunto na horta, que produz quase uma forma de meditação que produz abstração do ego: formas de transcender o eu. Esta expressão, de transcendência do eu e integração com a natureza, já havia aparecido na palestra sobre Permacultura, poucas horas antes, o que me pareceu bem sincronístico!

Tomo a liberdade de reproduzir uma fala do Sérgio Pamplona (vide texto anterior do PorQueNão?) sobre saúde na palestra anterior deste mesmo dia, no Festival Setor Criativo Sul. Na palestra Permacultura: soluções criativas para os desafios da atualidade, ele disse o seguinte: “Quando a gente fala em saúde a gente está falando em doenças. Na medicina tradicional chinesa o médico só ganhava se não tivesse ninguém doente. Na nossa sociedade o cidadão que aumenta o PIB é o que tem diabetes e hipertensão aos 40”. Essa fala prova que nossos convidados e temas escolhidos foram super bem escolhidos, ou seja, assim como o PorQueNão? estão todos interligados.

Bem nessa linha foi a fala do Marcos Freire, do CERPIS, que estudou taoismo e acupuntura na China. Ele concedeu uma entrevista para o PorQueNão?, que será publicada nos próximos dias. Na palestra, o Marcos falou sobre autonomia, mais especificamente a importância da educação popular para se libertar de uma situação opressiva que existe no país. 

“Se você não for dono da sua vontade irá encontrar quem tome conta dela”

– Marcos Freire

O Marcos Freire ressaltou que é muito importante reunir um grupo que tem uma doença em comum, como câncer ou fibromialgia – e não falar de nada relacionado à ela! Falar de respiração, pois saúde é uma experiência no presente, esteja você com a doença que tiver. “As pessoas perderam o contato com seu prazer, alegria, energia interior, capacidade de sorrir – e é isso que importa resgatar. Curar pode ser fazer as pazes com o sintoma.” Não é lindo?

Luciana Sendyk

Escritora

Escrevo livros (autorais ou de terceiros), textos, anúncios, sites, blogs, peças de teatro, projetos diversos e, especialmente, aqui no PorQueNão?. Sanitarista de formação, ecossocialista por opção e vegana por ideologia, feminista e engajada, o que não falta é tema para redação. Acredito que escrever é um ato político e que atuar pode transformar o mundo.

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