thaiza_motoserraAgricultura sintrópica ou Agrofloresta é muito mais que uma técnica de cultivo de alimentos em sistemas agroflorestais. Fala sobre cooperação e abundância — como tenho aprendido desde que comecei a pesquisar sobre métodos de agricultura sustentável e me encantei pelos ensinamentos de Ernst Gotsch.: “A agrofloresta é uma coisa absolutamente filosófica”, diz Cássia Castro, companheira e sócia de Karin Hanzi no Epicentro Dalva, onde fiz uma residência de duas semanas em setembro. “É um conjunto de relações flexíveis. E atende à busca existencial e humana das pessoas hoje em dia”.

Fui para o Epicentro Dalva em busca do protagonismo feminino na agricultura sustentável. O que aprendi e descobri lá pode ser lido aqui. Acabei conversando bastante sobre os conceitos da agricultura sintrópica e as mudanças que operam nos sistemas e seres humanos. Leia trechos das conversas que tive com Karin, Cássia e Andréia:

PQN? – Há uma procura bastante grande por cursos de agrofloresta e muitas pessoas deixando as vidas nas cidades para iniciar sistemas agroflorestais. Por que a agricultura sintrópica está atraindo tanta gente?

cassiaAndréia: A agrofloresta envolve um conhecimento muito bacana, muito mais interessante que a agricultura convencional. Ela encanta por trazer uma teoria muito lógica. As pessoas se encantam e têm vontade de fazer isso que a agricultura sintrópica diz, de ver acontecer. É uma restauração de ecossistema vinculada á produção de alimentos. Os valores que ela carrega são naturais,
parece que resgata alguma coisa que a gente tem lá dentro e não sabe direito. Eu me encantei pelos princípios da agricultura sintrópica, toda essa forma de enxergar as relações. E a inclusão do ser humano com a floresta, e não a separação entre áreas protegidas e as pessoas. Enquanto a natureza não for produtiva ela vai ficar cada vez menor e seguir a lógica de produção. É uma ciência completa. Tem todo o conhecimento de solo e de sucessão ecológica. É atrativa e muito mais convidativa que a agricultura convencional.

Karin: De certo modo a agrofloresta ou agricultura sintrópica é o único jeito pra produzir alimento e recuperar a terra ao mesmo tempo. Mesmo se a gente parar de destruir tudo a gente vai se extinguir, porque a sucessão natural é muito lenta. As pessoas estão percebendo que a vida da cidade é uma ilusão. A gente continua escravizado e preso em sistemas que são meio escravizantes. Trabalhar com agricultura sintrópica é uma certa liberação do ser humano. De produzir seu próprio alimento e de regenerar a terra. A agricultura sintrópica dá uma qualidade de vida e uma alimentação muito mais saudável. As pessoas ficam felizes. A gente volta pra floresta, nicho do ser humano, volta a ser disseminador de genética, volta a aprender a podar. É é uma outra qualidade de vida e é um prazer enorme.

PQN? – De maneira geral, as pessoas não querem ser agricultores. Associam isso com trabalho pesado e pouca remuneração. Há décadas a população rural começou a migrar para as cidades procurando trabalho. Vocês acham que a agricultura sintrópica pode oferecer, em termos financeiros, condições melhores para o pequeno agricultor?

Karin: A agricultura convencional maltrata muito as pessoas. Dá pra entender por que a pessoa prefere trabalhar num caixa empacotando do que trabalhar na enxada o dia inteiro, ou aplicando veneno. Plantar em sistema agroflorestal regenera a terra, enquanto o convencional tira da terra. Na agricultura orgânica convencional, o sistema está sempre estressado. É preciso aplicar produtos, fica muito caro. A agricultura sintrópica é mais viável financeiramente, porque o sistema não está estressado. Comparando com uma pessoa, se a gente comer bem a gente não vai precisar do médico. Se o sistema está saudável não precisa do engenheiro agrônomo. Você vai estar saudável. É o que a agrofloresta faz. Dá pra ganhar mais que com orgânico de monocultura porque é mais barato pra produzir.

Mas a questão nem é tanto produção mas como você vende. Porque você tem mais diversidade de produtos, mas em menor escala. Em vez de ter 20 toneladas de batata doce você vai ter uma tonelada de batata doce, uma de mandioca, uma de banana. Pra tirar um sustento confortável o desafio é o escoamento, as formas de escoamento existentes são voltadas para a monocultura.

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Andréia: Tem também uma mudança de mentalidade. Você não vai fazer tanto dinheiro, mas você vai perceber que não precisa tanto. E começar a viver com menos dinheiro e mais abundância, com aquilo que a terra te dá.

Cássia: Quando as pessoas da cidade vão para esse tipo de vida elas passam a precisar menos. Você não vai fazer o salário que tinha, mas não precisa de um telefone novo, de um computador, não precisa de roupas novas. É um processo de desapego dos seus quereres que é muito divertido.

thaizaVocê come menos. Se abrir minha geladeira não tem quase nada, porque a gente come as coisas daqui, não tem aqueles vinte mil produtos industrializados caríssimos.

Não faz mal que não tenha dinheiro se a gente pode colher o tomate ali.

A gente começa a perceber como temos medo de tanta coisa. A gente é condicionado a ter medo de uma porrada de coisa. Esse medo é pra manipular a gente, continuar consumindo.

PQN? – A agricultura sintrópica, assim como a permacultura, fala muito sobre a função de cada elemento de um sistema. E função tem a ver com relação. E o que Ernst diz é que essas relações resultam em um sistema mais abundante.

Andréia: Ao estudar agricultura sintrópica você enxerga que tudo tem uma função, todos os elementos — os vivos e os que a gente considera não-vivos: o solo, a água, os abióticos. Todos têm uma função e essa função leva a um estado melhor do que eu estava antes.

Uma planta não compete com a outra, a planta se retira pra outra planta vir, o inseto corta uma planta não pra destruir, e sim pra melhorar o sistema. Todas as relações são baseadas numa melhora da qualidade das coisas. Todos os seres envolvidos estão otimizando os processos de vida. Tudo ali tá acontecendo pra melhorar. Você esquece essas relações de predação e de competição.

Karin: É uma mudança de filosofia. A gente tem que mudar a filosofia de escassez para a filosofia de abundância. Tem isso de consorciar pessoas também, juntar as pessoas ao invés de separar. É uma mudança de paradigma quase. Quanto mais a gente junta, mais energia a gente acumula no sistema. Cuidar um do outro em vez de competir. Quando a gente compete a gente fica mais fraco e fica triste.

karinDo mesmo jeito que a gente cria condições pras plantas a gente tem que criar condições para as pessoas, para as pessoas ficarem felizes. E aí o sistema todo cresce junto como um organismo só. O legal da agrofloresta é que quanto mais pessoas trabalham na terra, mais que todo mundo fica rico. Quanto mais a gente agrega pessoas, mais recurso, mais vida, mais dinheiro.

Se eu sou fruticultora, e se a pessoa quiser plantar tomate nos canteiros, maravilha! Por favor, ganhe dinheiro, eu tenho certificação orgânica, vai lá e plante seu tomate, venda seu tomate, se quiser contribui com alguma coisa, se não tudo bem, porque pra mim é um benefício você plantar o tomate, você vai tirar tiririca da terra, vai olhar, o tomate vai beneficiar as outras plantinhas.

É bom agregar os grandões, Duratex, essa galera com 300 mil hectares, tá bom, vamos fazer agrofloresta com eles, mas o que é escala mesmo é a gente trazer as pessoas de volta pro campo. Isso é agrofloresta em escala, isso é agricultura regenerativa em escala. Porque quanto mais gente a gente agrega no campo plantando em sistema agroflorestal, mais a gente recupera. Tem que trazer o ser humano de volta pra natureza, o ser humano tem que voltar a ser uma enzima da regeneração.

Andréia: A gente faz parte de um sistema inteligente. Temos que aprender a manejar a natureza com os seres especialistas e técnicas agroecológicas, respeitando os processos naturais. Isso é sustentável.

Como diz o Ernst, a gente, o ser humano, tem que ser querido de novo. Querido pela natureza, pelo planeta, pelos sistemas naturais. Pra você ser um ser querido você tem que ter uma função.

Esse entendimento vai além de trabalhar com a natureza, você começa a enxergar isso em todas as relações na sua vida. Abundância gera a abundância. Você planta um negócio e ele vai dar frutos. Esse conhecimento impacta muito na relação com os outros. É uma revolução interna.

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Karin Hanzi é agricultora, sócia do Epicentro Dalva.
Cassia Castro é artista plástica e sócia do Epicentro Dalva.
Andréia Mitidieri estudou gestão ambiental e restauração florestal e hoje é
agricultora, residente e monitora do Epicentro Dalva.

Para quem quer saber mais sobre agricultura sintrópica:
http://herbivora.com.br/o-que- e-agricultura- sintropica/

Saiba mais sobre o trabalho do Ernst:

agendagotsch.com

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ale nahraEscrito e vivido pela colunista Ale Nahra.

Escrevo na herbivora, gosto de dançar, cozinhar, plantar, cuidar de bicho (inclusive gente). Estudo permacultura, agroecologia, agrofloresta e agricultura urbana. Tenho uma horta na laje de um sobrado em São Paulo, sou voluntária de proteção animal, danço forró, cozinho comida vegetariana e agrobiodiversa.

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