Os termos “hortas urbanas” e “agricultura urbana” são cada vez mais procurados na internet. Segundo o Google Trends, a busca por essas palavras mais que dobraram nos últimos 12 meses, mas por que será?

Plantar comida na cidade dá esperança, saúde, estética, renda, contato com a natureza e muito mais. Essa é uma daquelas ações que eu sempre penso: se eu fosse política, daria mais incentivo pra esse tipo de prática.

Pensa comigo. Todo mundo come (ou deveria) pelo menos três vezes ao dia, é muita comida pra muita gente, e se pararmos pra pensar na distância, na qualidade e no bem estar dos agricultores, chegamos a conclusão que o processo atual é insustentável.

Mas ai vem a notícia boa! Tem muito urbanóide tomando consciência de seus impactos através da alimentação, e assim o movimento de hortas urbanas e comunitárias cresce de vento em popa no Brasil, assim quem antes não sabia plantar nem um temperinho, hoje participa de grupos e aprende junto com seus vizinhos.

A cidade de Birigui fica no interior de São Paulo a 500 km de distância da capital, e se tornou um exemplo nacional. Um projeto de mais de 33 anos que foi implementado pela prefeitura, hoje é o maior sucesso. Pra contar melhor sobre como as coisas funcionam lá, conversamos com a Clarissa Pires que trabalha com educação ambiental no SESC.

Olha só o que ela contou pra gente:

PQN – De onde surgiu a ideia de fomentar hortas urbanas? 
Clarissa – O projeto das hortas urbanas em Birigui surgiu por iniciativa da ex primeira dama, Dona Hebe. Na época ela notou que os funcionários da Prefeitura com padrão sócio econômico menor, não tinha qualidade na alimentação, “o prato era muito preto e branco” (palavras dela). Então a alimentação foi uma preocupação que acabou norteando este projeto. Inclusive na época não se encontrava verduras e legumes para vender nos supermercados, palavras dos agricultores destas hortas.

Dona Hebe também ofereceu cursos de alimentação para que as pessoas soubessem usufruir dos alimentos das hortas. O projeto das hortas urbanas já tem uns 33 anos, sobrevivendo a várias gestões. Chegou a ficar uns 10 anos sem nenhum apoio da Prefeitura, mas isso não fez com que as hortas sumissem, pois os próprios agricultores se ajudavam para manter suas hortas. Hoje este projeto é reconhecido inclusive por empresas locais, que fazem doações de materiais.
PQN – E quais foram os primeiros passos?
Clarissa – Dona Hebe conta que batia de porta em porta falado sobre o programa, para incentivar às pessoas a se inscreverem no programa.
PQN – Hoje quantos habitantes Birigui tem e quantas hortas?
Clarissa – Em torno de 120 mil habitantes, cerca de 58 hortas comunitárias.

horta birigui
PQN – Qual é o papel da prefeitura na iniciativa?
Clarissa – A Secretaria de Desenvolvimento Social é quem administra este programa desde a época de Dona Hebe. A prefeitura prepara a terra do terreno destinado à horta, separa em canteiros, põe sombrite, disponibiliza água, sementes, algumas ferramentas e uma casinha para ferramentas. Também é responsável pela limpeza, por viabilizar transporte para buscar estrume nas fazendas da região e pela fiscalização das hortas, através de visitas e reuniões com os representantes das hortas. A secretaria abre inscrições gratuitas para quem quiser adquirir canteiros, são 4 por família.
PQN – E os moradores, também estão envolvidos com as hortas?
Clarissa – As inscrições são abertas periodicamente e gratuitas a quem se interessar.
PQN – Depois de anos difundindo hortas urbanas na cidade, como isso afetou a comunidade?
Clarissa – De acordo com os próprios agricultores mudou o padrão alimentar, pois passaram a comer muito mais verduras e legumes. Para alguns é uma forma de ocupação (aposentados), para outros até chega a complementar a renda.
PQN – Como a produção é escoada?
Clarissa – Toda a produção é deles, de quem cultiva. São hortas para subsistência, se há excedente eles podem vender, dar, trocar, enfim. A secretaria estimula que eles doem o excedente, e de fato, muita comida é doada às instituições locais, a própria secretaria busca nas hortas e distribui nestas instituições (ex. a APAE).

horta birigui
PQN – Em tempos em que a água é escassez, como vocês fazem a irrigação?
Clarissa – A água encanada é disponibilizada em todas as hortas, porém não sei te informar se há programa de racionamento ou algo parecido, nas épocas de escassez de água.
PQN – Quais são as maiores dificuldades do projeto? Tem muito furto e vandalismo?
Clarissa – A população em geral respeita as hortas urbanas e raramente há vandalismo. As dificuldades geralmente são em relação aos recursos financeiros e também em relação ao controle de escorpiões e caramujos.
PQN – Como é a relação dos agricultores de cada horta? Eles se encontram periodicamente, se
capacitam juntos?
Clarissa – Que eu saiba, não há capacitações frequentes, eles aprendem mais uns com os outros. Cada horta tem um representante e se reúnem entre eles e com a Secretaria de Desenvolvimento Social.
PQN – Quais são os próximos passos?

Clarissa – A Secretaria tem um projeto para fazer compostagem com os resíduos das hortas e podas das árvores trituradas para distribuir entre os agricultores, mas precisam de uma trituradora.
PQN – A cidade ficou mais conhecida por causa das hortas urbanas? Vem pessoas de fora da
cidade para conhecer?
Clarissa – A cidade é mais conhecida pela indústria de calçados infantis, o projeto das hortas não é um atrativo na realidade, apesar da comunidade local conhecer o projeto.
PQN – E quais são suas dicas para alguém que gostaria de começar um projeto de hortas
urbanas em sua cidade?
Clarissa – Acredito ser de grande importância conversar, abrir diálogo e buscar parcerias com a Prefeitura local. Começar pelas escolas públicas e instituições locais pode ser uma boa para mostrar a viabilidade e importância das hortas urbanas.

***

viviane Noda(*) Viviane Noda é empreendedora social, comunicadora e cofundadora dessa mídia interdependente. 

Formada em administração com ênfase em marketing pela ESPM e especializada em Negócios Sociais pela ideologia Yunus, ela acredita que divulgar bons exemplos seja o respiro necessário para dar fôlego na caminhada de um futuro melhor.

Além de escrever, editar, filmar e coordenar, também dá consultoria de comunicação.

**

Lembrando que a missão do PorQueNão? é divulgar conteúdos riquíssimos como esse. A gente acredita que a transformação vem através de bons exemplos, e para continuar trabalhando com um time incrível mais os equipamentos e deslocamentos necessários, contamos com você. Conheça a nossa campanha de financiamento (https://apoia.se/porquenao)