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O que um jantar de PANC me ensinou sobre história:

O que um jantar de PANC me ensinou sobre história:

por | 17 abr 2017

Há dez mil anos começávamos a selecionar o que seria vendido no mercado hoje. A redescoberta de outras plantas resgata a história deixada de lado. 

Recentemente fui a um evento de PANCs (plantas alimentícias não convencionais, saiba mais aqui) na Casoca, localizado na cidade de Mococa, que consistia numa roda de conversas e depois um jantar com diversas plantas e uma lasanha de bambu, carne de jaca e molho de goiaba. O evento foi ministrado pelo João Neto, adepto da agricultura natural que falarei em breve. Só naquele jantar, comi uma variedade de umas 20 plantas, fora a lasanha. Fiquei pensando quantas pessoas comem alguma coisa verde além do alface, rúcula ou couve. O que conhecemos como “alimento” hoje é fruto de uma construção e seleção de grandes empresas que disponibilizam uma gama minúscula de opções no mercado, e de coisas que se parecem com comida, e crescemos achando que é só isso mesmo que existe.

Pois veja só que interessante, o que comemos hoje começou a ser selecionado há dezenas de milhares de anos por nossos ancestrais. Nós passamos a confiar mais em algumas plantas do que outras e, dessa maneira, iniciamos uma seleção inconsciente de variedades que podiam ser cultivadas e tinham mais potencial na hora da colheita. Claro que hoje já desenvolvemos muitas técnicas que nos permitiriam ter um leque maior de alimentos em nossos pratos, mas é ai que entram as grandes empresas com suas reduzidas opções de grãos que servem de base para quase tudo o que comemos.

Sou de uma família predominantemente urbana. Meus avós nasceram na cidade. Muita gente ainda tem avós nascidos na roça, mas certamente seus netos não poderão dizer o mesmo. Por causa disso, perdemos muito, mas muito mesmo, do conhecimento que a terra nos deu e que costumava ser passado de geração em geração. Num rápido questionamento que fiz para o João Neto, ele logo me apresentou a agricultura natural. Conceito extremamente interessante no qual, de maneira resumida, João atua como coletor, deixando o trabalho de semear para os animais que o fazem quando excretam fezes com sementes do que comeram. Daí a mágica mais natural de todas acontece: a semente, envolta em matéria orgânica de primeira qualidade, ganha vida e cresce. Se considerarmos que a raça humana era predominantemente coletora por muitos milhares de anos desde sua concepção, este foi um conhecimento que perdemos.

A bíblia das PANCs no Brasil

Da caça e da coleta viveram os humanos por dezenas de milhares de anos. Basicamente, nossos antepassados comiam as frutas da época, as sementes e folhas que apareciam no caminho e eventualmente conseguiam caçar algum outro animal. De dez mil anos pra cá, essa organização mudou com o desenvolvimento de técnicas de agricultura, tornando-nos povos sedentários. Esses primeiros ficaram conhecidos como caçadores coletores.

A memória anda de mãos dadas com o esquecimento. Quando decidimos lembrar de algo, e passamos isso à frente, consequentemente estamos deixando outra coisa de lado. Isso sem tocar no assunto de como nossa memória é seletiva. Hoje, nas escolas, faculdades etc, somos expostos a uma memória extremamente seletiva, tendo que partir de nós a busca por outras óticas dos fatos. Isso pode ser um problema, pois nos limita.

Como no exemplo acima, limitou minha alimentação por anos a fio, mas não me abati e fui atrás de conhecer o que mais a natureza nos dá para comer. Descobri que existem mais de 30 mil espécies de PANCs!

Para aumentar o debate, proponho a democratização da memória – trazer todas as visões sobre os mesmos fatos – , colocando de volta diversas óticas e pontos de vistas que são deixados de lado quando vamos falar de história. Um tema tão amplo não deveria ser ensinado de maneira tão restrita. Assim como o João Neto dialoga com os animais como estes sendo semeadores de fauna e flora, nós somos semeadores da nossa própria memória. Da memória de nossa comunidade, da memória de nossa interação com a natureza, dos nossos alimentos e por aí vai uma lista que não acaba mais. Que tal semearmos boas práticas de alimentação, de consumo, de relacionamentos e tudo o que nos coloca mais próximos uns dos outros e com a natureza de maneira geral?

Na dúvida, sugiro começar com um jantar de PANCs 

Turma reunida pra começar o jantar <3

DANILO DELIA

Colunista

Danilo Delia é praticante de jiu jitsu e educador. Contrário às tradicionais metodologias de ensino que já se mostraram ineficazes, adota o esporte junto com a educação como chave para trocar conhecimento com crianças e adolescentes. Atua no Projeto Viela, zona sul de SP, com sua metologia de Jiu Jitsu & Leitura e com o EducaViela. Acredita na micropolitica como meio efetivo de transformação e caminho mais curto para impactar positivamente o local em que vive.

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Escrito por guto

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