Brasil é o país que mais mata ativistas no mundo, mas estamos nos multiplicando

by | 14 Mar 2019

Em tempos de ódio, é preciso ser mais ativista que nunca.

 

Ativistas são pessoas que representam a luta por uma causa. Muitos dedicam suas vidas aos direitos de pessoas com deficiência, igualdade racial, LGBTI+, igualdade de gênero e também pelo meio ambiente e animais. Seres com senso de justiça que se empenham de diversas formas para que vivamos em um mundo mais pacífico. Mesmo que para isso, seja necessário enfrentar debates e pressões agressivas.

De acordo com a coordenadora de Programa de Políticas e Direitos Socioambientais do Instituto Socioambiental (ISA) em uma entrevista ao jornal Nexo, Adriana Ramos – “o trabalho da sociedade civil é complementar às ações de governo no sentido de fazer a sociedade avançar com vistas a consolidação da cidadania e da justiça social”.

Nesse sentido, nós mesmos, pessoas em geral, em alguma medida somos ativistas, seja na internet ou nas ruas. Muitas vezes inspirados por outros ativistas, somos compelidos a nos manifestar diante de uma causa que nos tocam de alguma forma, e assim, nos somamos às ações de políticas públicas para o que acreditamos ser certo ou necessário.

Um exemplo? Muitos de nós se manifestam nos meios digitais em prol da preservação da Amazônia e outros biomas brasileiros ameaçados, diversas vezes motivados por outros ativistas que nos alertam e nos informam. Essas manifestações são válidas e somam forças junto a quem está na linha de frente do embate.

 

Então, se ativistas são as pessoas que despertam a responsabilidade da consciência, será que não deveriam receber a devida valorização pela sua resistência e trabalho?

 

Infelizmente no Brasil, o que acontece é o oposto. Nós somos um dos países que mais mata ativistas no mundo, de acordo com a ONG Global Witness, pelo segundo ano consecutivo em 2018. Além do recorde no uso de agrotóxico no mundo, além de ser o país que mais mata pessoas LGBTI+, também estamos nesse pódio vergonhoso de assassinatos.

 

“Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra aos pobres acabe?”

– Marielle Franco

Hoje completa um ano do assassinato da vereadora negra, periférica, feminista, lésbica e ativista de direitos humanos, Marielle Franco. A morte de Anderson Gomes, o motorista de Marielle, também foi uma enorme perda e só aumenta o tamanho da tragédia e do absurdo. No entanto, aqui nesse texto queremos nos ater aos principais representantes das lutas por justiça social, que foram e vêm sendo mortos na tentativa de que se silencie essas oposições que mexem, abalam e transformam estruturas sociais.

A voz de Marielle ecoava em muitos ouvidos que achavam que ela não deveria ocupar o lugar em que estava. A voz dela era a voz de muitas e muitos que não têm chance de falar e ser ouvidos na nossa sociedade. A perda dela é muito maior que a nossa capacidade de tentar mensurar. E mesmo com toda comoção mundial diante desse brutal assassinato, com uma carga simbólica terrível para nossa sociedade e democracia, mesmo com a perda inestimável para as famílias e amigos, mesmo assim, um ano depois ainda não sabemos oficialmente qual foi a motivação desse crime e quem, ou quais, foram os mandantes. (E nem vamos entrar no mérito sobre a proximidade, cada vez mais estreita, com membros do governo atual).

 

Um ativista incomoda muita gente, dois ativistas incomodam muito mais.

 

Dentre os depoimentos que escutamos nos noticiários, um que chama muito a atenção, e que ouvimos repetidas vezes, foi a fala da Assessora que estava ao lado quando a vereadora foi executada, Fernanda Chaves: “Era um conjunto de coisas, a Marielle incomodava”.

Aí está uma característica do ativismo: ele incomoda muita gente. Chico Mendes era seringueiro e lutou a maioria da sua vida por justiça socioambiental, preservação da floresta amazônica e pela subsistência de centenas de famílias. A luta dele era legítima e necessária, e por mais que ele tenha se transformado em um símbolo de inspiração às pautas socioambientais, ainda há quem conteste a legitimidade dessa luta. E, nesse contexto, apesar de suas reivindicações serem diferentes, e de estarem separados por décadas de existência, Chico e Marielle se encontram em um triste ponto comum: ambos foram assassinados.

O mais triste disso é saber que esse tipo de crime é tão comum no nosso país, e ao mesmo tempo tão subnotificado. Casos que conhecemos, como os de Marielle Franco, Chico Mendes, Dorothy Stang, foram apenas os que ganharam visibilidade na imprensa. Todavia, temos que pensar em todos e todas que são mortos, calados, invisibilizados, cuja a morte passa silenciosa como se nunca tivessem existido.

Em uma matéria da Vice, é apontado como “os assassinatos de ativistas acontecem, normalmente, em áreas rurais, se dão por conflitos por terras ou recursos naturais e, mais importante de tudo, passam despercebidos. A própria Anistia reconhece o número oficial de mortes provavelmente seja muito maior, mas não são reportadas e acabam sendo esquecidas.”. Quantos e tantos têm suas vidas roubadas por poderosos se sentem ameaçados? Quantas lideranças indígenas, quantos militantes negros, quantos ativistas sociais e ambientais, precisarão ser mortos para que nós reconheçamos a importância da igualdade?

O que há de tão amedrontador nessas vozes e nessa vontade de mudar as estruturas? Mudanças são necessárias para o nosso progresso. E se podemos mudar para uma direção que busca igualdade social, que pode promover qualidade de vida para todos (seres humanos, animais e florestas), e preservação ambiental, que garante a nossa permanência no Planeta, algo que traz benefícios a todos, por que não seguirmos juntos? Será que na verdade gostamos desse comportamento auto destrutivo e temos medo da igualdade? De quem é o medo por igualdade?

Seja qual for a resposta dessas perguntas, nós ainda acreditamos que há quem queira construir um futuro melhor que o momento em que estamos vivendo. E por isso, por Marielle e por tantos outros ativistas que vamos continuar resistindo em nossas causas, desejando e agindo para que nosso futuro seja melhor que o nosso presente. 

“O ódio dos homens passará, e ditadores morrerão, e o poder que foi tirado do povo, retornará para o povo”

– Charles Chaplin

E para não acabar essa leitura sem esperanças, deixamos aqui um exemplo claro de que o ativismo está se multiplicando no mundo.

Amanhã (15/03), acontecerá a mobilização mundial contra as mudanças climáticas liderado por adolescentes de 1325 lugares de 98 países graças a uma jovem sueca que começou a faltar à escola de sexta feira como protesto. Saiba mais sobre esse movimento aqui.

Escrito à 6 mãos femininas:

Betina Aleixo

Mariana Badaró

Viviane Noda

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