O riso e os momentos de celebração são fundamentais para a permanência das mais diversas culturas que compõem a família humana. E nós, brasileiros, somos conhecidos mundo afora pela nossa alegria, que se deve muito aos povos originários da terra, assim como aos africanos: ambos carregam consigo a sabedoria de que o sorriso é uma boa forma de resistência às mazelas sociais a que foram (e continuam sendo) submetidos ao longo do processo de colonização.

No caso do samba, letras que funcionam como instrumento de protesto e denúncia também são elemento fundamental para o senso de pertencimento e o resgate da autoestima que foram negados ao povo preto por conta da Diáspora Africana, resultado da imigração forçada durante o período de expansão imperialista europeia. O nome samba consta na língua cokwe e quicongo, ambos falados na Angola, e batiza o ritmo que surgiu como espontânea tentativa da população afro de resistir à desumanização promovida com a finalidade de legitimar a exploração dos corpos pretos ao longo do processo de formação da nação brasileira.

Começando nas batucadas em roda que traziam alguma lembrança da casa África para as comunidades pretas, o registro na Biblioteca Nacional do que é considerado o primeiro samba aconteceu exatamente há 100 anos. Chama-se “Pelo telefone”, de Ernesto dos Santos, o Donga. Era um samba-carnavalesco que seria usado no carnaval seguinte, em 1917.

Donga, sambista autor do 1º samba-carnavalesco (Reprodução)

Donga, sambista autor do 1º samba-carnavalesco (Reprodução)

Na época de Donga, o samba era, basicamente, uma forma de gente preta e iletrada, que sempre sustentou a economia brasileira fazendo os trabalhos mais pesados e essenciais, ganhar visibilidade social. Era também um tempo em que o a camada dominante tentava desafricanizar o corpo e a alma brasileira, dando sequência ao embranquecimento que posteriormente fez parte das políticas oficiais do Estado brasileiro para receber imigrantes no governo Vargas.

 

Samba do morro X samba da cidade: a exploração econômica

Dez anos depois, o samba mais próximo do que conhecemos hoje surge, junto com o embrião das escolas de samba, a Deixa Falar. O termo “escola” foi inserido inclusive como forma de trazer alguma valia para o sistema social dominante, passando a ideia de erudição.

Maurício Barros de Castro, professor do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, afirma (em entrevista à Carta Capital) existir uma constante tentativa de afastar o samba da sua origem nos morros, com forte influência das demandas da indústria cultural: o samba começou a ser mais aceito depois que os batuques passaram a ser compostos e cantados por pessoas brancas, como Noel Rosa e Ary Barroso e, assim, foi finalmente se tornando um dos protagonistas no Carnaval.

No território do teatro musicado nos anos 30, foi surgindo o samba-canção: de andamento lento, melodia romântica e letra sentimental, mais ao gosto das elites, e talvez mais “limpo”, como requeriam as ideias de eugenia propagadas pelo racismo “científico”, menosprezando expressões afro-brasileiras, como afirma Nei Lopes, sambista, escritor e autor de obras que buscam a difícil tarefa de compilar as origens do samba.

Assim, após a estruturação da indústria fonográfica, foram surgindo as distinções entre os sambas “do morro” e “da cidade”: as criações dos núcleos favelados para os enredos das escolas de samba e que os compositores do asfalto transformavam em matéria-prima para o produto industrializado.

O efeito positivo da crise no Carnaval 2017

A ousadia de escolas como a Imperatriz Leopoldinense e Portela no carnaval desse ano foi novidade num Carnaval que, desde os anos 90, vinha sendo silenciado pelos patrocinadores – boa parte deles empresas, organizações públicas e governos sem interesse em polemizar. Junto a isso, foi se perdendo a personalidade do discurso das escolas, assim como a denúncia dos preconceitos, das injustiças e da desigualdade social que transcorrem a história brasileira.

A crise resultou na queda dos patrocínios, o que reabriu o território para que as escolas voltassem a fazer enredos autorais, propostos pelos carnavalescos, não por uma empresa. Seguindo essa linha, a Imperatriz Leopoldinense decidiu quebrar o silêncio sobre os frutos envenenados que os indígenas vêm colhendo por conta da ganância dos herdeiros dos colonizadores: fome, exclusão social e outros problemas trazidos pela exploração irresponsável da Mãe Terra.

Cahê Rodrigues, carnavalesco da Imperatriz, visitando as tribos do XIngu (Reprodução - Arquivo pessoal)

Cahê Rodrigues, carnavalesco da Imperatriz, visitando as tribos do XIngu (Reprodução – Arquivo pessoal)

A escola causou barulho – antes mesmo de desfilar – com a bancada ruralista ao homenagear as tribos do Xingu, que colocou um holofote sobre o preconceito e o racismo com que os indígenas continuam a ser tratados. Entrou na avenida à meia-noite do domingo 26.02, emocionando o público ao dar destaque para as lideranças indígenas, como o cacique Raoni, além de alegorias como a “Belo Monstro” e a ala dos agrotóxicos, mesmo com a represália de setores do agronegócio.

Cacique Raoni no desfile da Imperatriz (Alexandre Durão- G1)

Cacique Raoni no desfile da Imperatriz (Alexandre Durão- G1)

A Portela, que entrou no dia seguinte com o enredo “Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver um rio passar”, do carnavalesco Paulo

Ala "Um rio que era doce" da campeã Portela (Reprodução)

Ala “Um rio que era doce” da campeã Portela (Reprodução)

Barros, também mencionou o desastre ambiental causado pela Samarco no Rio Doce: a quarta ala, chamada de “Um rio que era doce”, trouxe pescadores enormes, cobertos de lama, com as mãos para o céu, lembrando o desespero que ainda paira pela região atingida. No chão, os integrantes da escola também levavam cartazes com os dizeres “crime, desespero, ganância, justiça e sem água”.

 

O desfile rendeu à Portela o título de vencedora desse ano. Mas, com certeza, o campeão desse carnaval foi o samba, que resgatou a sua característica essencial: celebrar o fato de estarmos vivos e lembrar que, enquanto populações inteiras forem deixadas para trás, não poderemos nos intitular humanidade.

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Por Damaris Souza