REPENSAR NOSSO LIXO, POR QUE NÃO ?

Há cinco anos vivo numa cidade de cem mil habitantes no sul da França chamada Avignon. O centro histórico é cercado por muros e bem medieval, com ruas estreitas e construções baixas.

Foi nesta cidade que agora em fevereiro os lixeiros decidiram fazer uma greve. Algo que é legítimo, uma vez que eles se sentiram lesados pelas decisões administrativas. O problema é que o lixo foi se acumulando por um, dois, doze dias.

Já no segundo dia parecia enorme. Imagine você depois dos doze dias de greve.

Os problemas começaram a surgir. Eram tantos sacos de lixo acumulados que eles ocupavam vagas de carro, lugar nas calçadas. Uma epidemia de parvovirose canina começou a matar os cachorros da região. A sorte, se pudermos falar assim, era que em fevereiro faz muito frio nesta cidade. Por isso não tivemos ainda mais epidemias e doenças proliferadas.

IMG_0269No 11o dia de greve, uma montanha de lixo explodiu, carbonizando um carro que estava próximo e os fios elétricos da rua. Boa parte do centro ficou no escuro.

A greve dos lixeiros não mostrava mais apenas um problema de negociação entre a administração pública e os funcionários. Denunciava a quantidade de lixo que produzimos e nossa ignorância em relação a isso.

Com doze dias de greve, finalmente voltamos a ver os lixeiros nas ruas.

 

Mas aí, algumas questões ficaram.

Por que produzimos tanto lixo?

Por que as pessoas continuavam a depositar inúmeros sacos de lixo na rua mesmo percebendo que estávamos nos atolando neles?

E mais, para onde iria aquilo tudo? Para onde sempre vai o lixo que todas as cidades produzem? Ele não desaparece, ele não é desintegrado. Ele vai para algum lugar e este lugar é certamente limitado. O que vamos fazer com tanto lixo?

Foram as perguntas que me ocorreram. E algumas respostas também.

PRODUÇÃO DE LIXO

Encontrei numa estatística de 2013 que dizia que cada brasileiro produz em média 383 kilos de lixo por ano. Isso, como você pode perceber, é mais de um quilo de lixo por dia. Se você multiplicar por todos os brasileiros, verá que não existe lugar nenhum no mundo para depositar tanto lixo.

Devemos produzir menos lixo. Fato. Isso não é mais uma escolha. Mas a boa notícia é que é possível realizar essa redução sem perder qualidade de vida, nem tempo, nem dinheiro. É muito mais uma questão de cultivar novos hábitos que de se sacrificar. Um pouco como o caso do cinto de segurança.

Uma situação parecida sobre greve de lixeiros aconteceu em Nápoles e virou case a ser estudado.

Gustavo Ritzmann, é um dos estudiosos do assunto e também um dos organizadores do evento lixo zero em Joinville, sócio da empresa Rastro Soluções Sustentáveis. Ele explica como a população poderia agir nesses casos. “Partindo da solução mais “fim de túnel”, se as pessoas segregassem certinho os resíduos e fizessem a higienização, mesmo que superficial dos resíduos elas poderiam mantê-los armazenados por mais tempo sem a problemática de apodrecer, começar a dar cheiro e bichos”. Além disso a compostagem também reduziria em grande parte o tamanho do resíduo gerado e inclusive os riscos de manter o lixo acumulado por muito tempo. “50% dos resíduos gerados em um domicílio são tratados no local e não precisariam de coleta pelo município/empresa”, conta.

Na hierarquia da redução de desperdício, estão as palavras chaves: recusar, reduzir, reusar, reciclar e recuperar.

PLÁSTICO DEMAIS

Um dos grandes problemas do excesso da produção de lixo está no excesso do consumo de plástico. E, embora pareça simples a solução ao pensar na reciclagem, não é tão linear assim.

Uma parcela ainda muito reduzida do plástico que descartamos consegue ser reciclada. A maioria vira lixo, vira morte nos oceanos, vira matéria tóxica.

É possível repensar esse consumo com algumas ações simples: recusando o uso de canudinhos, evitando uso de pratos, talheres e copos plásticos (nada que uma mochila bem preparada não resolva), praticar o hábito de andar com ecobags e estocar alguns potes de vidro, limitar ao máximo o consumo de embalagens (consumir produtos de feira ajuda muito nesse propósito). E ainda, descobrir os novos (e antigos) métodos para substituir fraldas e absorventes plásticos.

Reciclagem biológica: Há pouco tempo foi descoberto pela Universidade de Stanford que a larva do bicho da farinha (Tenebrio) poderia consumir alguns tipos de plástico e de isopor (material dificílimo de reciclar). Isso se daria graças à uma bactéria presente no sistema digestivo da larva. Porém, não se anime demais! A pequena larvinha não dá conta de reciclar todo o lixo que produzimos nem se ela tiver milhares de irmãs. É um trabalho de formiga (desculpa o trocadilho), mas é uma boa notícia que merece ser explorada. Os cientistas ainda acreditam que outros insetos, se bem estudados, poderiam contribuir com esta questão. Bom seria se o mundo parasse de olhar os insetos apenas como inimigos. Eles com certeza podem fazer muito pela reciclagem. #economiadoconhecimento

NÃO EXISTE JOGAR FORA, LIXO PRECISA DE UM BOM DESTINO

O gás metano: O lixo gera diversos gases, entre eles o gás metano (CH4), que é muito inflamável. Dependendo do seu acúmulo, se exposto à uma bituca de cigarro quente, ou mesmo a muito sol, pode gerar fogo.

Isso cria um problema, mas imagine se for bem administrado? Pode ser uma fonte de energia.

A matéria orgânica: Jogamos fora muita coisa que servira de nutrição para animais e plantas. Por que não consideramos a composteira como item de primeira necessidade na nossa vida? Se não em nossa casa (o que é possível em unidades de menor tamanho) por que não no nosso bairro ou na nossa cidade? A composteira comunitária já é uma realidade em diversas cidades do mundo, inclusive no Brasil. Mas precisa ser mais difundida.

Roupas e eletrônicos: Nem tudo que era para ser durável realmente é. Com a obsolescência programada, os eletrônicos duram cada vez menos, com baterias muito frágeis, as pessoas se vêem obrigadas à descartar produtos novos, ainda que muitas de suas funcionalidades estejam intactas. Com as roupas também não é diferente. Tão custosa para o meio ambiente a produção de um jeans ou um casaco, eles são jogados fora no momento em que a atriz da novela passa para um novo modelito. Há empresas que usam celulares velhos para construírem câmeras de segurança. Há empresas que remodelam as roupas descartadas, criando novo estilo e novo interesse. Em alguns países já é comum encontrar para comprar aparelhos recondicionados. São computadores ou celulares usados que foram readaptados às condições de novos, certificados e garantidos para o consumidor. Ideias de reutilização para estes materiais não faltam. Mas falta legislação e fiscalização sobre este descarte desnecessário e a obsolescência programada. E incentivo para quem já está encontrando soluções. #economiacircular

EXEMPLOS NO MUNDO

Com a união entre população, instituições civis e órgãos do governo, Vancouver no Canadá tem o plano de se tornar a cidade mais sustentável do mundo, estimulando ao máximo a triagem do lixo entre seus moradores que, se em duas semanas não conseguem fazer uma boa triagem, recebem a visita de um técnico que irá explicar como funciona o trabalho para eles.

Mas estes planos de cuidar melhor do seu lixo não são apenas de Vancouver. São Francisco, nos Estados Unidos, com 800 mil habitantes, é uma das cidades mais populosas do país e para manter seu equilíbrio ambiental definiu como prioridade não enviar nada para aterro. Virou vanguarda no desperdício zero, com leis voltadas à gestão dos resíduos sólidos que tornam mais acessível a compostagem e a reciclagem.

Madri, Londres, Berlim, Copenhagen e outros também se esmeram neste esforço. Desperdiçar é uma palavra que só poderá ser conjugada no passado. No Brasil temos o exemplo de Curitiba, Londrina e São Miguel do Gostoso repensando sua forma de lidar com lixo e com a vida em comunidade, afinal tudo forma um grande ciclo. Podemos incluir mais nomes e números nesta lista. Não temos nada que nos impeça disso a não ser alguma ignorância que já estamos vencendo.

Aqui, algumas ideias de instagram brasileiros com dicas para reduzir o desperdício cotidiano :

@por_favor_menos_lixo

@menos1lixo

@fecanna

@menoslixo.emfamilia

@lawsumerism (este é o meu projeto sobre consumo consciente)

“O real desafio da gestão de resíduos é que para o ciclo funcionar bem, todo ator deve entender qual a contribuição que pode dar para realmente colaborar com a responsabilidade e o respeito ao meio ambiente e aos demais “, Denise Bruschi, engenheira civil sanitarista, mestre em Sustentabilidade Sócio Econômico Ambiental, que trabalha há 32 anos com gestão ambiental.

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IMG_6832(*) Diorela Kelles cresceu numa grande cidade, Belo Horizonte. Lá ela aprendeu a ser comunicóloga e advogada. Mas foi numa cidade pequena, para onde se mudou aos 30 anos, que ela aprendeu mais sobre a vida em comunidade, e a importância de cuidar dos ciclos dos quais todos fazemos parte. Hoje ela escreve para unir tudo que aprendeu, tentando espalhar boas ideias e criar correntes de ações. www.escrevo.me

 

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Lembrando que a missão do PorQueNão? é divulgar conteúdos riquíssimos como esse. A gente acredita que a transformação vem através de bons exemplos, e para continuar trabalhando com um time incrível mais os equipamentos e deslocamentos necessários, contamos com você. Conheça a nossa campanha de financiamento (https://apoia.se/porquenao)

Fontes e pesquisas:

http://www.abiplast.org.br/noticias/levantamento-mapeia-a-reciclagem-de-plasticos-no-brasil/20161006101952_L_493

Para avançar, compostagem comunitária tem que ser incluída nos orçamentos dos municípios

https://pt.wikipedia.org/wiki/Bicho-da-farinha

https://medium.com/@fecanna/carta-22-desafio-do-julho-sem-pl%C3%A1stico-5ae9909b65e6

http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/franca-aprova-artigo-de-lei-que-pune-empresa-que-praticar-obsolescencia-programada.html

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/05/internacional/1515145196_165569.html

Os caminhos a serem percorridos por São Francisco (Califórnia) para o alcance da meta lixo zero em 2020