5 razões de por quê precisamos falar sobre 2050

by | 21 Set 2019

Quantos anos você vai ter daqui a 30 anos? Eu, com sorte, terei 60 anos de idade. Mas provavelmente estarei sem perspectivas de uma aposentadoria próxima e pensando nesse texto. Bem, talvez a “não aposentadoria” seja o menor dos meus futuros problemas. Não sei.

 

A maioria das projeções sobre o futuro da sociedade humana, em estudos e artigos científicos, estão apontando para daqui a 30 anos. Nesse horizonte diverso de 2050, existe a possibilidade de termos a automação de diversos serviços por meio de inteligências artificiais, onde 50% de toda energia produzida no mundo virá de fontes renováveis, e quando já teremos crianças nascidas com seu DNA editado e aprimorado. Espantoso, não? Parece um futuro promissor com muitas questões em aberto sobre ética e tecnologia, trazendo soluções para problemas atuais e a criação de novos desafios para superar.

 

AS PREVISÕES

Se por um lado as previsões de ciências e tecnologia são instigantes, por outro, as projeções de colapsos sociais e ambientais são catastróficas. E, por mais cansativo que seja, se faz necessário apontar o óbvio, e dizer que para chegarmos nesse cenário otimista de tecnologia e automação, primeiro, temos que superar as previsões de catástrofes ambientais e garantir nossa sobrevivência.

Talvez o bombardeio de notícias e informação faça com que a nossa atenção seja dispersada e, por isso, não consigamos mensurar o que nos aguarda. Mas vamos condensar aqui algumas das principais projeções e, somando as informações, poderemos lançar um olhar sistêmico sob esse futuro.

 

“Life in plastic, it’s fantastic”, só que não.

Não precisamos ir muito longe para saber que a forma como consumimos plástico se tornou um problema sério, desde a produção até o descarte. Para o ano de 2050, a estimativa é de que tenhamos mais plástico do que peixes no oceano. 

No entanto, para além das sacolas plásticas e canudos – que são passivos ambientais terríveis – a nossa maior interferência e danos causados pelo uso e descarte indiscriminado de plástico são os microplásticos: partículas de plásticos minúsculas, muitas vezes até microscópicas, difíceis de identificar a olho nu. Nesse sentido, com o consumo crescente de materiais plásticos de uso único, fibras sintéticas, descartes indevidos de plástico, e utilização de polímeros em produtos de higiene pessoal e cosméticos, a quantidade de microplásticos presentes no oceano aumentou exponencialmente.

Sob esse aspecto, é importante observar que partículas tão pequenas de plástico interferem diretamente em animais, aquáticos e terrestres, que estão na base da cadeia alimentar. Por exemplo, animais pequenos que deveriam se alimentar de plâncton, e estão consumindo partículas de plástico quase microscópicas.

Sim, tem plástico no peixe, mas também plástico no sal de mesa que usamos em casa. E se você está se perguntando quais os possíveis problemas de saúde a ingestão de micro partículas de plástico podem acarretar, infelizmente a resposta ainda não é certa, porque se trata de algo tão recente e sem precedentes, que não há como se medir as consequências a longo prazo.

“Os efeitos da ingestão e respiração destas partículas são ainda desconhecidos, segundo o estudo, mas alguns pedaços são os suficientemente pequenos para entrar nos tecidos humanos onde podem desencadear respostas autoimunes ou liberar substâncias tóxicas. Os pesquisadores destacam ainda que são necessárias novas pesquisas para conhecer os impactos do microplástico para a saúde”. – Deutsche Welle

Mesmo assim, apesar de todos os problemas que envolvem a sua fabricação e consumo, o plástico ocupa um lugar muito importante nas nossas vidas, e a realidade sem ele seria completamente diferente. Não é possível pensar em viver a vida que vivemos sem plástico. Logo, a melhor forma de valorizar devidamente esse material tão versátil é fazer um uso racional dele.

Farinha pouca, meu pirão primeiro.

Seguindo o fluxo no tema das preocupações alimentares, também há a estimativa de que em 2050 teremos, aproximadamente, 10 bilhões de pessoas no planeta. A pergunta de ouro que surge diante dessa perspectiva, é: “Como vamos alimentar 10 bilhões de pessoas, sem destruir o planeta?”.

Sim, “sem destruir o planeta” é um ponto importante de notar. Afinal, podemos constatar a falência e obsolescência do nosso sistema alimentar atual, visto que temos exaurido o solo, poluído o ambiente com pesticidas, extinguido nossa diversidade alimentar com as monoculturas e, além de tudo, ainda desperdiçamos 1/3 da produção de alimentos enquanto temos mais 800 milhões de pessoas passando fome no mundo. Somado ao fato de que a maioria da produção mundial de grãos é destinada para ração animal, e que, para isso, também fazemos uso de 70% da água doce potável disponível, e de 75% das terras aráveis do planeta – entre pastagem e produção de ração.

Esse sistema de produção e consumo convencional de alimentos atual já é insustentável per se. Em 30 anos se tornará impraticável.

Sob esse aspecto, o relatório do World Resources Institute (WRI), lançado em 2018 durante a COP-24 do Clima, na Polônia, afirma que será necessário mudarmos a nossa forma de consumir e produzir alimentos. Indo desde a redução de proteína animal, principalmente ruminantes, chegando até aumentar a eficiência da produtividade agrícola, garantindo mais alimentos produzidos em um mesmo espaço.

Isto porquê, uma vez que os recursos ficam mais escassos – e é essa a tendência -, não teremos espaço suficiente para sustentar uma dieta à base de proteína animal, como temos hoje em dia, para 10 bilhões de pessoas. Nesse sentido, os alertas para a necessidade de uma mudança na forma como entendemos comida e alimentação já estão sendo feitos, e cabe a nós a devida adaptação, ou as necessidades futuras vão nos impor essa mudança.

Segurança alimentar é fundamental para evitarmos colapsos sociais. E, lamentavelmente, são em cenários de escassez que o ser humano revela o que tem de pior na sua essência.

Abelha pra quê?

Apenas entre outubro de 2018 e março de 2019, 400 milhões de abelhas morreram no Rio Grande Sul. Estima-se que meio bilhão de abelhas morreram em todo território nacional nesse período. Mas, sim, o Rio Grande do Sul detém o primeiro lugar no pódio da mortandade de abelhas. E o que isso tem a ver com 2050 ou qual é a relevância das abelhas na sua vida?

As abelhas são responsáveis por 75% da produção mundial de alimentos. Não estamos falando de mel. Estamos falando de polinização. Conforme já sinalizamos, a previsão é de um crescimento populacional muito grande, aumentando também, proporcionalmente, a demanda por alimentos. Consegue imaginar o tamanho do desafio de produzir alimentos sem polinizadores? Nem eu.

Por meio de um laudo do Laboratório Nacional Agropecuário do Rio Grande do Sul, constatou-se que a morte das abelhas foi causada por conta do uso de agrotóxicos nas plantações. Apesar disso, o governo federal, até o mês de setembro de 2019 já liberou mais 325 novos agrotóxicos no mercado, além de flexibilizar a avaliação de risco desses produtos.

“Certo, mas as abelhas não são os únicos insetos polinizadores”, alguns podem dizer. E é verdade. Todavia, como a geógrafa Larissa Bombardi relatou ao podcast Café da Manhã (Folha de S.Paulo), as mortes de abelhas são registradas unicamente porque a criação destes animais envolve uma atividade econômica. Porém, não temos um acompanhamento registrado, nem com a mesma precisão, da mortandade de todos os outros insetos polinizadores, e que são essenciais na composição da biodiversidade do ambiente.

“Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais, não haverá raça humana.”

– Albert Einstein (1879 – 1955)

Uma previsão de quatro anos parece alarmista demais. Entretanto, o fato é que sem abelhas, sem insetos, nós não sobrevivemos por muito tempo.

Alalaô, mas que calor!

Sim, o aquecimento global é real. Sim, nós o estamos causando. Por isso, uma das metas estabelecidas pelo Acordo de Paris, é a de evitar que a temperatura média do planeta aqueça mais do que 1,5ºC até 20100. No entanto, temos previsões de cenários onde a temperatura média da Terra poderá alcançar os 2ºC em 2050, e ledo engano quem pensa que esse é um número inexpressivo. 

Realmente parece pouco, se pensarmos na amplitude térmica que temos durante o dia. No entanto, a temperatura média da Terra é algo maior e mais complexo.

Consideremos por um instante o oceano: uma vastidão imensa com milhões e milhões de quilômetros cúbicos de água. É muita água, certo? Agora, pensem na quantidade de calor necessária para elevar a temperatura dos oceanos. 

Uma pequena explicação:

Esse aumento em 2ºC, que pode não representar uma grande ameaça para alguns, é uma tragédia anunciada. Para facilitar a didática e a compreensão da gravidade do problema, o documentário “Em Busca dos Corais” (Netflix) traça uma comparação entre o planeta e o corpo humano, considerando ambos organismos vivos e dependentes de equilíbrio para obterem um bom funcionamento. Tendo isso em vista, se nosso corpo aumenta a temperatura de 36ºC para 38ºC, identificamos isso como febre e um sintoma, um aviso de que algo está atacando nosso organismo. Quando isso acontece, ficamos debilitados, enfraquecidos, e se faz necessário tratar, seja lá o que estiver causando, a febre. No entanto, se permanecemos nesse estado por longos períodos de tempo, podemos comprometer gravemente órgãos e sistema imunológico, causando até mesmo morte em alguns casos. Dessa forma, se nosso corpo reage negativamente quando a nossa temperatura aumenta, por que esperamos que com outro organismo vivo, como a Terra, seja diferente?

Atualmente já é possível perceber os desdobramentos desse desequilíbrio, e talvez o mais visível deles seja a morte dos recifes: mais da metade dos corais do planeta está morta e a estimativa é de que perderemos cerca de 90% até 2050, com a progressão do aquecimento global.

E a preservação dos corais é crucial para a manutenção da vida marinha como a conhecemos. Conhecidos como florestas subaquáticas, eles produzem parte do oxigênio que respiramos e, apesar de ocuparem apenas uma fração dos oceanos, fornecem habitat para 1/4 espécies marinhas.

No entanto, o aumento da temperatura média da Terra acarretará na morte de diversas formas de vida marítimas e terrestres, gerando uma perda irreversível de biodiversidade; além disso, veremos a aceleração no derretimento das calotas polares, causando elevação dos níveis do mar; teremos um aumento no derretimento do permafrost, promovendo mais liberação de gases de efeito estufa; contaremos com o agravamento em intensidade e frequência das tempestades tropicais, unidos a eventos climáticos extremos de chuva, seca, frio e calor, causando perdas severas na produção de alimentos e colocando em risco a segurança alimentar das populações; sem contar as migrações em massa por parte das populações vulnerabilizadas por causa das mudanças climáticas, que forçarão mais de 140 milhões de pessoas a migrarem de seus países de origem, até 2050.

 

Desse modo, temos um outro fator preocupante, e atualmente negligenciado: saúde. Poderemos ter um agravamento de epidemias como a dengue, zika e chicungunya, que são prevalentes em países de clima tropical, como o nosso. Além de doenças decorrentes da falta de condições básicas, como acesso à água potável, alimentação e abrigo.

Doenças como a dengue, são comuns no Brasil, e os planos de prevenção são totalmente ineficazes por vários fatores. De qualquer forma, a norma é aceitar os, cada vez mais altos, índices de contagio e fazer campanhas de vacinação, o que não deixa de ser essencial, mas não resolve a quantidade cada vez maior de focos de contaminação. Portanto, não é difícil imaginar um agravamento dessa situação, dentro de um cenário de instabilidade, escassez e aumento da densidade populacional.

O sertão pode até não virar mar, mas a Amazônia vai virar savana.

Não é segredo (apesar do desejo do governo de que assim fosse) que a Amazônia foi o centro das discussões ambientais no último mês de agosto, por causa das queimadas promovidas pelo “dia do fogo”.

Mesmo sendo divulgada, por vários dias seguidos, através de portais de monitoramento do clima, como a MetSul, a imagem dos corredores de fumaça que desciam pelo continente só viraram notícia no dia 19 de agosto, quando o céu de São Paulo virou noite, às três da tarde, e as pessoas notaram que a água da chuva que caía era de cor preta. Até então, nenhum veículo de comunicação tinha comentado de forma enfática sobre o fato de que haviam florestas queimando há quase dez dias no norte do país, e nem a razão para tal acontecimento.

As circunstâncias não colaboravam para que as queimadas fossem notadas: o congelamento do Fundo Amazônia e desmonte dos órgãos ambientais fiscalizadores fez com que o contingente de fiscais do IBAMA fosse reduzido drasticamente e não houvesse monitoramento nas regiões em que os incêndios aconteceram. Dessa forma, o assunto se tornou inevitável quando os outros países perceberam a guerra declarada contra o meio ambiente e o negacionismo das mudanças climáticas institucionalizado pelo governo brasileiro.

No entanto, quando o dia virou noite em São Paulo, um dos comentários mais comuns era de que “parecia o apocalipse”. Não parece. É.

O clima mundial depende da Amazônia. O Brasil depende da Amazônia e assim como de outros biomas, mata atlântica e cerrado, por exemplo, que contribuem para a manutenção de um frágil equilíbrio ambiental que nos é essencial. Todavia, diversos países dependem da umidade fornecida pela Amazônia, incluindo nossos vizinhos Bolívia, Paraguai, Argentina, Uruguai e até no extremo sul do Chile, cuja chuva que irriga lavouras e abastece rios e reservatórios, chega por meio dos dos rios voadores. Logo, desviar o olhar dos 29.944 km² de floresta que foram queimados no mês de agosto, seria a mais estúpida das negligências. 

Nesse contexto, se faz necessário e urgente lembrar que a floresta amazônica consegue se manter com uma quantidade mínima de árvores, e que, ultrapassando esse limite (que está cada vez mais próximo), se iniciará um processo de savanização. Isto é, a floresta tropical, dependente da umidade que ela mesmo gera, começaria a secar, mudando completamente para um bioma de características próximo ao cerrado, agravando drasticamente os efeitos do aquecimento global, e comprometendo o clima em escala mundial.

“Uma crise econômica faz o pobre passar fome. Uma crise ambiental, faz o pobre morrer.”

– Pirulla

E agora, José?

Unir todas essas previsões e enxergar o cenário completo, ou talvez o que é possível de enxergar até o momento, pode soar catastrofista. E eu lamento por isso, pois não é o objetivo deste texto.

Por mais que o futuro agora se assemelhe com uma distopia futurista, digna de cinema hollywoodiano, vale ressaltar que o objetivo das obras de ficção distópicas, em sua maioria, é lançar um alerta sobre as consequências das nossas escolhas. Tudo isso pode parecer distante, mas negar a realidade é o caminho para a loucura. E, por mais que seja possível identificar um método na insanidade que permeia as narrativas combativas aos movimentos socioambientais, nada muda o fato de ser loucura, e de que negar uma coisa não a faz deixar de existir.

Você pode negar a existência da gravidade, mas isso não te faz ir flutuando pro trabalho.

 

No entanto, caso você tenha chegado até aqui, parabéns e me desculpe. A finalidade aqui é apenas a de trazer uma visão sistêmica sobre o que estamos fazendo e como isso poderá se refletir futuramente. E o tema exige essa atenção e esse peso.

Ao relembrar as previsões sobre o futuro com energia limpa e inteligência artificial, talvez consigamos sentir um certo e necessário otimismo de que superaremos esses desafios. Eu não tenho e não trago respostas mas, se eu puder trazer a minha visão sobre os fatos, eu diria: o tempo está acabando.

As mudanças climáticas são um consenso entre a classe científica há tempo. É um tema que mobiliza parte da sociedade e deveria ser um dos assuntos mais presentes dentro dos debates políticos. Para amenizarmos as consequências do aquecimento global, e garantirmos um futuro minimamente digno para as futuras gerações, precisamos de ações de micro e larga escala, demandando consciência individual e políticas públicas massivas. Este é um assunto que atravessa gerações e nações, do qual a nossa sobrevivência depende. Simples assim.

Por isso, busquemos nos informar devidamente sobre o quanto nossas práticas individuais estão interferindo no clima, no meio ambiente e na sociedade. Para aqueles que têm essa possibilidade, exigir das indústrias e empresas, fornecedoras de produtos e serviços, comprometimento socioambiental. Faz parte da nossa jornada de transformação abandonar hábitos que podem ser nocivos (mesmo os que mais gostamos). E, mais do que nunca, exigir dos líderes que elegemos como representantes, uma preocupação genuína e ações efetivas em relação às mudanças climáticas e ao meio ambiente.

Nossa relação com o meio ambiente, é a relação nós mesmos e com as outras espécies que dividem o planeta conosco. Nossa relação com o meio ambiente reflete a saúde da nossa sociedade, reflete o respeito que temos com a nossa vida e com a vida dos nossos. Porém, nós dependemos de mais vidas que podemos supor.

Que a conscientização que necessitamos não venha em um prazo de trinta anos, quando a única ação possível será a de se perguntar “como deixamos isso acontecer?”.

Betina Aleixo

Designer ativista

Acredita que a comunicação é uma poderosa ferramenta para promover mudanças. Por isso, trabalha em diversas áreas da comunicação e encara essa profissão com muita responsabilidade. Integrante da equipe do PorQueNão?, designer freelancer e comunicadora ativista socioambiental.

“Eu sou muitas coisas. Ser designer é apenas uma delas”.

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