VOCÊ PRECISA DE UMA MÍDIA TRANSFORMADORA PARA TE CONTAR O QUE É 

Por Luciana Sendyk

Cada vez fica mais nítido como informação e a grande mídia caminham em linhas paralelas. Uma coisa muito importante está acontecendo agora, mas não apareceu uma linha nos veículos tradicionais. Nós do PorQueNão? e vários colegas da mídia alternativa participamos e vamos te contar com exclusividade (infelizmente, pois a gente queria mesmo é que todo o mundo ficasse sabendo) o que rolou no Sol Nascente esta semana.

O nome romântico esconde uma realidade bem dura: o Sol nasce todos os dias na maior favela do Brasil – bateu a Rocinha recentemente, mas mesmo no nosso país que adora ser o maior em tudo esse não é um título para se orgulhar- onde, depois de oito anos de luta, o MTST conseguiu finalmente obter títulos de terra para 109 famílias desabrigadas. Mas, entre receber a escritura e poder construir uma casa a distância é imensa, e em geral intransponível: os contemplados vão arrumando umas sobras de materiais de construção aqui e ali e juntam tudo em um casebre precário, dentro do qual dormem sonhando em algum dia poder ter uma casa de verdade. Isso, nas noites tranquilas; quando chove ou venta eles têm pesadelos (que muitas vezes se tornam realidade) com tetos caindo e paredes voando.

Mas na casa da dona Alzerita tudo será diferente, a começar da energia de trabalho da comunidade que se juntou para fazer a casa de uma senhora que vive sozinha e não teria como construir a própria moradia.

A concepção do projeto nasceu da necessidade de viabilizar a construção das casas. O Thiago Ávila, do site BemVivendo, tinha acabado de fazer um curso de permacultura na Fazenda Bella onde o Osmany Segall havia ensinado um pouco de técnicas de bioconstrução. No dia da primeira assembléia para decidir como erguer as moradias, o Marcos Ninguém, da Universidade Alternativa de Permacultura (UniPermacultura) e referência em bioconstrução, estava também em Brasília e, todos juntos, encantaram as famílias e o pessoal do MTST para esta alternativa.

“O sistema de mutirão traz na sua essência a coletividade que os movimentos sociais sempre reinvindicaram, enquanto a bioconstrução faz a síntese entre humanidade e natureza”, conta Thiago. “A riqueza do projeto é combinar a revolta com tudo o que está errado no mundo com a paixão em construir desde já uma outra realidade possível. É um projeto voltado para o futuro, para o desafio da nossa geração que é parar a destruição e preservar a vida no planeta, pautado por construir um novo mundo que está por vir.“

A iniciativa inédita é fruto do trabalho de muitos voluntários do país inteiro, dos futuros moradores, que irão aprender na prática como construir juntos as casas uns dos outros, do trabalho engajado de professores como Marcos Ninguém, do Osmany Segall, do pessoal que se dispõe a cozinhar e cuidar da logística, de muita gente sonhando e suando embaixo da chuva que não deu uma trégua nos primeiros dias de construção.

O bairro ecológico do Sol Nascente é revolucionário em todos os sentidos: nas tecnologias sustentáveis (erguer paredes de bambu a pique com a terra da escavação das próprias fossas, sistema de captação de água das chuvas, energia solar), no trabalho em mutirão, no financiamento coletivo para compra de materiais, no valioso certificado profissionalizante de bioconstrutor para os voluntários, na independência em relação aos custos embutidos nos materiais tradicionais. A primeira casa do bairro foi construída com investimento total de apenas 10 mil reais, cerca de um terço do gasto mínimo habitual.

Cada lote, de 22 metros de comprimento por 6 metros de largura, irá ganhar uma casa de 65 m2 construída coletivamente. Todos os moradores irão ganhar uma biblioteca comunitária, playground e paisagismo. A dona Alzerita (que não esteve na cerimônia inicial no sábado porque passou mal de tanta emoção e teve que ser hospitalizada, mas já recebeu alta e acompanhou a construção) vai ganhar uma casa linda e segura. O país e o mundo vão ganhar um exemplo de como erguer uma casa sólida com valores sutis como otimismo e solidariedade. E o planeta vai ganhar mais uma demonstração de que é possível viver com conforto sem dilapidar o meio ambiente.

Brasília, 24/12/2017