É necessário mudança de hábitos para uma relação de amizade com a água.

Vamos debater de forma mais profunda nossa relação com a água?

Hoje venho a escrever o que talvez seja o assunto que mais me toca. A importância da água em nossas vidas. Entendo que todos saibam o quanto este recurso natural é tão essencial, mas porque será que ninguém trata a água com a dignidade que ela merece?

Falam muito em conscientização neste dia (Dia mundial da água), mas será todos já não estão conscientes de sua importância? Tive muitos privilégios na vida, e um deles foi a oportunidade de estudar engenharia ambiental e sanitária. Durante o curso, aprendemos todo o sistema de gestão das águas em cidades, residências e etc. Um dos assuntos mais pautados nas aulas era o desconhecimento das pessoas sobre de onde vem a água, e para onde ela vai depois de utilizada.

Perdemos o contato com a água no nosso dia a dia. O que sabia sobre a água, antes da universidade: a água vem do rio, chega na nossa torneira, sai pelo ralo. Rio? Contato praticamente zero. Nossos rios foram canalizados, tubulados, repreendidos. De fato, tudo isto tem uma importância na distribuição igualitária da água, e no controle de enchentes, mas é importante discutirmos como estamos cada vez mais alienados em relação a água.

Sinto que esta alienação faz falta quando jogamos na roda de conversa o tema de saneamento. Dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico (SNIS, 2014), aproximadamente 58% do Brasil possui coleta de esgoto e apenas 42% possui algum tipo de tratamento de esgoto (Este dado não contabiliza áreas irregulares como favelas!). Além disso, resta aquela dúvida: nosso esgoto está sendo tratado mesmo? Estamos lidando com a água de maneira mais sustentável?

Pois é, acredito que não. Quando penso em sustentabilidade, penso no conceito do ciclo de vida (Cradle to cradle). Este conceito tem um fundamento crítico muito importante sobre a sustentabilidade, basicamente deveríamos estar criando sistemas cíclicos onde geramos resíduos, e estes resíduos conseguem voltar ao início da produção.

Demonstração do conceito de ciclo de vida (Cradle to Cradle).

Figura 1: Demonstração do conceito de ciclo de vida (Cradle to Cradle).

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje em dia, captamos a água, usufruímos dela, e descartamos o esgoto no rio. A questão é que dentro do esgoto, existem diversos recursos que não estão sendo aproveitados:

  • Nutrientes – Em nossa urina, podemos encontrar alto teor de nutrientes essenciais à agricultura, o famoso NPK.
  • Gás Metano – Quando fezes e restos de alimentos estão no final do processo de decomposição, o gás metano é gerado. Este gás pode ser utilizado tanto para geração de energia elétrica como uso em fogões.
  • Adubo – Após a decomposição e estabilização das fezes e restos de alimentos o resultado final é um adubo rico em matéria orgânica que poderia ser utilizado em certas culturas.

Hoje em dia existem diversas tecnologias e técnicas que possibilitam o uso do esgoto como recurso, aproximando-nos de um ciclo mais fechado e evitando a poluição de nossos rios. Lógico que isto também envolveria a mudança de hábitos, como por exemplo, a segregação de urina das fezes e reformas em nossos banheiros que simplesmente seriam inviáveis (por enquanto). Mas será que novos bairros não poderiam começar a instalar estes novos modelos de interação entre pessoas e esgoto? Onde queremos chegar? E estamos caminhando para isso?

A problemática da nossa relação com a água é muito mais complexa do que se imagina. Seria ótimo se em nosso esgoto só encontrasse urina, fezes, restos de alimentos, no máximo uma areia. A realidade não é essa, com o aumento do consumo de agrotóxicos, anticoncepcionais, produtos de limpeza (surfactantes ou tensoativos), antibióticos, e outros produtos fármacos, hoje nota-se que estes produtos estão sendo encontrados em lugares onde não deveriam estar.

Para finalizar este texto, gostaria que vocês conhecessem os famosos poluentes emergentes. Estes são os grupos de poluentes que não são exatamente tratados nas poucas estações de tratamento de esgoto e que não existem vastas pesquisas sobre a presença deles no meio ambiente. Eles surgiram do desenvolvimento da indústria química, e como são sintéticos, pouco são absorvidos pela natureza. Se fosse para listar estes poluentes, seria necessário um livro, portanto listarei só alguns:

  • Antibióticos,
  • Agrotóxicos;
  • Hormônios;
  • Anti-Chamas;
  • Surfactantes;
  • Bisfenol A;
  • Agentes de Proteção Solar;
  • Surfactantes (tensoativos);
  • Antisépticos;
  • Fragrâncias;
  • Drogas Psiquiátricas.

O excesso do uso destas substâncias vai de contramão da ideia do ciclo de vida. O que gostaria de levantar por meio deste texto é que no dia mundial da água, talvez seja um dia para discutirmos mudanças de hábitos. Até quando a natureza poderá suportar nosso estilo de vida? Existem alternativas sim. Por isso que o PorQueNão me encanta. Que este seja um espaço de debates. Não precisamos mais do excesso e não precisamos voltar a idade da pedra. Podemos diminuir o consumo de produtos fármacos, anticoncepcionais, agrotóxicos (etc) de forma bem mais inteligente. Que este dia haja mais discussão sobre nossa relação com a água e a natureza.

 

***

Escrito pelo engenheiro sanitarista e colunista do Canal, Danilo Noda Mariotto.