O feminismo é um movimento que busca direitos iguais entre homens e mulheres, e está cada vez mais popular graças ao trabalho de muitas ativistas online e offline.

Nos últimos anos, tenho acompanhado a organização e ações dos jovens em relação aos problemas sociais no país. Ao mesmo tempo que vejo muitos conteúdos sem sentido nas redes sociais, por outro lado, vejo a garra e vontade de construir um futuro melhor, e eu me interesse por esses jovens que são otimistas.

A Beatriz é uma jovem que está amadurecendo em um mundo em transformação. Ela sabe que a geração anterior cresceu em uma realidade bastante diferente, com as mulheres disputando espaço com os homens e, pior ainda, com as outras mulheres. Ativistas como ela vão virar esse jogo, e construir com força, sabedoria e educação uma sociedade mais justa e igualitária.

Conheci a Beatriz Fogarin por causa de seus lambes lambes (arte urbana em pequenos cartazes colados pela cidade) que espalham frases como:

“Não quero seus elogios. Quero seu respeito”
“Eu pertenço a mim.”
“Você não precisa ser bonita como ela, você pode ser bonita como você.”

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Acompanhe sua trajetória pelo seu perfil do instagram @floresnasruas.

PQN- Me conte sobre a sua trajetória e quais foram os motivos que te levaram a estudar mais sobre feminismo.

B – Meu nome é Beatriz, tenho 18 anos e vou começar o primeiro semestre de pedagogia na UNICAMP. Eu acho que sempre fui feminista sem saber que o movimento existia. Fui começar a ter um contato mais direto no ano de 2015 em grupos só para mulheres no Facebook onde o feminismo era um dos assuntos abordados. Fui me interessando e comecei a pesquisar sobre mulheres fortes, fui ver sobre todas as pautas que estavam inclusas no movimento. Mas eu acho que aprendi mais (e ganhei mais força) em diálogos com outras mulheres sobre as experiências que cada uma havia passado.

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PQN – Como o feminismo no Brasil colaborou para o debate sobre relacionamento abusivo?

B – Relacionamentos abusivos sempre existiram, isso é fato. Mas era um assunto muito “intocável”, a gente vem de uma cultura que reproduz claramente que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. O feminismo também lida com o empoderamento feminino, então eu acho que isso ajudou as mulheres a se sentirem mais fortes e também a questionarem seus relacionamentos. As mulheres também não se veem mais como inimigas como antigamente, então, muitas vezes, as vítimas encontram apoio em outras mulheres que já lidaram com isso ou que simplesmente estão dispostas a ajudar a outra.

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PQN – O que define relacionamento abusivo?

B – Você esquece de se amar, se culpa pelos erros do companheiro e você não consegue ver o quão mal te faz. Começa de forma sútil com mentiras, traições, chantagem (na maioria das vezes isso cai tudo na vítima como a errada) e só vai piorando chegando até em agressão (lembrando que não é só física! Moral, psicológica, financeira e sexual também podem acontecer).

E é importante dizer que não existe apenas entre homem e mulher, pode acontecer entre pessoas do mesmo sexo e até em relações de mãe e filha por exemplo.

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PQN – Quais são suas dicas para amigas que estão passando por alguma dessas situações?

B – Acho que o primeiro passo é aceitar que se está num relacionamento abusivo. É bem difícil, pois muitas vezes existe sentimento envolvido. O que me ajudou muito quando eu passei por isso foi cortar totalmente qualquer tipo que contato com o meu abusador. Apaguei ele de todas as redes sociais e bloqueei o número dele, óbvio que não foi fácil… me vi várias vezes morrendo de vontade de chamar ele. Quando isso acontecia, eu chamava uma amiga e explicava a situação, tentava me distrair como fosse possível.

Arrumar distrações para esse período é essencial e vale tudo, desde começar uma série nova a praticar algum esporte. Se colocar em primeiro lugar, lembrar diariamente que a culpa do que você sofreu não é sua, fazem parte do processo. Terapia também me ajudou muito, se for possível, faça! Eu acho que essas são as coisas básicas que ajudam em qualquer “nível” de relacionamento abusivo. Mas é um processo: para algumas pode ser rápido, já para outras, durar mais tempo.

Cada um sente de um jeito, cada um tem uma vivência, cada um sofreu uma coisa… eu sempre digo pras meninas que eu conheço e estão em uma situação dessa que vai doer demais sair de um relacionamento assim, mas é um sofrimento a curto prazo! A longo prazo, é a melhor escolha que você poderia ter feito para você.

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PQN – Na sua opinião, as mulheres estão mais fortes e unidas hoje em dia?

B – O machismo tende a colocar as mulheres umas contras as outras o tempo todo. A gente tem uma tendência a comparar tudo, como a nossa beleza e a nossa inteligência, por exemplo. Temos que lembrar que cada uma é única! Somos lindas e especiais do nosso jeitinho… você não precisa ser igual a ninguém, ser você já é essencial!

Todas nós sofremos com o machismo, quanto mais juntas estivermos, menos força sobre a gente ele terá (óbvio que vai demorar muuuuuuuuito tempo, temos que lutar muito ainda!). “Juntas somos mais fortes” é a frase que responde a essa pergunta de um jeito bem fácil, o dia que todas as mulheres tiverem consciência disso, tudo vai ser mais fácil.

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PQN – Se você pudesse dar um conselho para toda humanidade, qual seria?

B – Atualmente eu ando muito ligada à educação. Pra mim, ela é a base para mudar o mundo. Então eu acho que se as pessoas privilegiadas pudessem contribuir nessa questão, cada uma como puder, o mundo seria um lugar melhor. Se colocar no lugar do outro, ouvir sobre a vivência dele e aprender com isso!! Cada um tem uma vivência diferente, temos que usar isso a nosso favor.

floresnasruas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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viviane Noda(*) Viviane Noda é empreendedora social, comunicadora e cofundadora dessa mídia interdependente. 

Formada em administração com ênfase em marketing pela ESPM e especializada em Negócios Sociais pela ideologia Yunus, ela acredita que divulgar bons exemplos seja o respiro necessário para dar fôlego na caminhada de um futuro melhor.

Além de escrever, editar, filmar e coordenar, também dá consultoria de comunicação.

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Lembrando que a missão do PorQueNão? é divulgar conteúdos riquíssimos como esse. A gente acredita que a transformação vem através de bons exemplos, e para continuar trabalhando com um time incrível mais os equipamentos e deslocamentos necessários, contamos com você. Conheça a nossa campanha de financiamento (https://apoia.se/porquenao)