29.03.2018 | Por Luciana Sendyk

O coração do Brasil é também o berço das águas do país. Você sabia disso? Eu não sabia. Aprendi isso – e muitas outras coisas – na semana passada, durante o FAMA – Fórum Alternativo Mundial da Água, que aconteceu em Brasília.

O primeiro susto foi esse: cresci achando que as nascentes dos nossos rios ficavam na região Amazônica. Mas não sou só eu: a ambientalista Marina Silva disse essa falsa verdade após a pré-estreia de um documentário no Fórum Mundial da Água – o oficial, o das corporações – onde eu também estive. Pois é, fui como representante do PorQueNão? aos dois fóruns, para escrever um texto informativo e completo sobre água, este recurso indispensável à vida que é abundante no país, que o Brasil tem para dar e vender… e descobri, primeiro, que: a abundância da água é um mito que está sendo diligentemente derrubado; e segundo: que o “presidente” do atual “governo”, está interpretando ao pé da letra a expressão, e literalmente tentando dar e vender a nossa maior riqueza.

E, no lugar de um texto informativo e claro, estou produzindo um depoimento pessoal e, ainda pior, emocionado do que vi e senti durante a semana passada. Mas para me redimir acrescento uma lista de matérias, estas sim, jornalísticas e precisas sobre o que rolou no FAMA. E ainda por cima uma entrevista com o Thiago Ávila, que foi um dos organizadores do evento e tem, sempre, mil coisas a dizer sobre ativismo para tornar o mundo um lugar melhor.

Minha excursão ao mundo das águas começou com leituras, afinal o meu lugar no mundo é mesmo entre as páginas de um livro (ou na frente do meu kobo). Assim aprendi que o Cerrado é a ‘caixa d’água’ do Brasil, a savana com a maior biodiversidade do planeta. Mas este imenso reservatório natural já foi dilapidado em 43%. As nascentes das três maiores bacias hidrográficas da América do Sul estão na região: Amazônica/Tocantins, São Francisco e Prata. A vegetação do cerrado é como uma esponja, que absorve e guarda, liberando aos poucos, a água das chuvas. Então, o Brasil tem o Cerrado, tem a Floresta Amazônica lá ‘em cima’ do mapa e a Mata Atlântica lá ‘em baixo’. É uma riqueza imensa – e a gente sabe que, onde há riqueza, há também cobiça.

A água não é apenas o líquido precioso que compõe 70% do planeta e mais de 60% do corpo humano. Ela é também matéria-prima indispensável da indústria, de corporações como Coca-Cola, Nestlé e Ambev, do agronegócio… sedentas de lucro e de água, estas empresas preferem devastar de pertinho, avançando o mais próximo possível das nascentes dos principais rios, com a apropriação das águas para irrigação e intenso desmatamento. Assim podem economizar na logística e não desperdiçar os seus recursos financeiros. Dilapidar, só a natureza.

Assista a entrevista com a Maria Alice, fundadora do Centro de Medicina da Floresta e trabalha ativamente na preservação da floresta:

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A luta pela água será a disputa do próximo século. Em um mundo globalizado, onde o valor de todos os bens (para não falar das relações afetivas), é definido principalmente em relação ao seu valor de mercado, a água está no centro do ringue. A privatização, e consequente monetização, do recurso mais valioso (ao lado do ar) à vida começou em 1993 em um documento produzido pelo Banco Mundial, no qual a água é definida como um ‘bem econômico, submetido às regras da rivalidade e da exclusão’.

Mas a água não é uma mercadoria!

O acesso à água potável, ao saneamento e à boa gestão dos ecossistemas de água doce são essenciais para a saúde humana, para a sustentabilidade ambiental e para a prosperidade econômica, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), que aponta a ‘solução verde’, ações baseadas na natureza, como a melhor estratégia para melhorar o abastecimento e reduzir o impacto dos desastres naturais. Estas foram algumas das resoluções apontadas em Brasília, a primeira cidade do Hemisfério Sul a abrigar esses encontros.

Brasília é, também, onde a crise do abastecimento ilustra de forma contundente o caráter seletivo do uso da água. A escassez não é para todos. “Quem tinha condições, comprava mais caixas d’água, e o mais pobre era quem realmente acabava racionando” declara Bruno Pilon, representante do Movimento dos Pequenos Agricultores e um dos coordenadores do FAMA. Ele conta que o FAMA surgiu como contraponto à visão mercadológica do fórum oficial, reunindo movimentos sociais, organizações comunitárias, povos indígenas e tradicionais, artistas e intelectuais de diversas partes do mundo, para compartilhar experiências sobre a gestão coletiva da água como um bem comum e defendendo o acesso a esse recurso como um direito humano fundamental.

Como eu me identifico com estes grupos citados, mais do que com a grande vitrine de negócios que imaginei encontrar no fórum oficial, escolhi cobrir apenas o evento alternativo. Mas, chegando lá, antes mesmo de começar a participar da programação e passear pela feira agroecológica, encontrei uma moça que mudou o roteiro da visita. A Nayane estuda medicina ayurvédica na Austrália, e está no Brasil passando as férias. Mas, ao invés de tomar sol e descansar no nordeste, ela passou semanas construindo a casa da dona Alzerita no mutirão de bioconstrução do Sol Nascente. Ela é uma pessoa iluminada, do tipo que joga uma luz e revela com suavidade o que poderia descansar na sombra. Ela falou, e tinha razão, que era importante visitar o ‘outro fórum’, o das corporações, para observar ‘no sutil’ o que acontecia por lá. Como logo em seguida ganhei um convite para a pré-estreia do Manual de Sobrevivência para o Século XXI, fui lá ‘conhecer o inimigo para melhor combatê-lo’. Mas não fui com esse espírito guerreiro, não: fui com a mente aberta para o sutil, indicado pela Nayane.

No fórum oficial, conversei com um monte de gente: seguranças, atendentes das lanchonetes, expositores, visitantes. Para resumir em um parágrafo: uma linda feira, bem organizada, que poderia ser de qualquer produto: chocolate, fraldas, peças para computador, qualquer coisa. Foram duas visitas agradáveis, para chegar à conclusão de que lá a água era, sim, uma mercadoria, e as pessoas estavam curtindo o passeio para ocupar seu tempo de forma proveitosa, sem se importar realmente com a estrela principal do evento. Obviamente, as conversas importantes e os grandes negócios acontecem nos bastidores, e para estes não fui convidada.

De volta ao FAMA, assisti a um depoimento que me levou às lágrimas. Foi na Assembleia dos Povos Tradicionais, realizada pela Comissão de Povos e Comunidades Tradicionais do FAMA. Não entrevistei a Letícia Camargo, que organizou e garantiu a presença de 42 entidades de pescadores, quilombolas, retireiros, diversas etnias indígenas, catadora de mangaba, extrativistas pesqueiros costeiros e marinhos e pantaneiros, que apresentaram as violações cometidas às águas em seus territórios de todo o Brasil, e também suas contribuições para a luta. A Letícia foi uma das pessoas que organizou toda a alimentação – deliciosa e com opções veganas, um verdadeiro luxo – durante o mutirão de bioconstrução, com a leveza de quem cozinha para meia dúzia de amigos. Então, quando ela se declarou exausta e avisou que iria desligar o celular para se recuperar, eu respeitei. Foi graças a ela (e também, imagino e espero, a uma bela equipe de trabalho) que presenciei o depoimento emocionante de uma liderança indígena (da qual fico devendo o nome e etnia):

“Desculpe que eu falo errado, é que eu sou analfabeta. Só tenho a sabedoria do meu povo, mas estão acabando com ele”, disse ela em claro e bom português. Depois contou que a água poluída já matou todos os velhos e várias das crianças da tribo. 😪

Eu ouvi isso e chorei, e foi assim que eu cheguei a uma conclusão sobre o FAMA. Foi essa: a lágrima é um líquido, e pode se tornar tão preciosa como água pura da nascente, mas só se soubermos transformar nossa revolta em mudança.

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Entrevistamos Thiago Ávila, um dos organizadores do Fórum Alternativo Mundial da Água. Thiago é ativista, facilitador de ações coletivas e mantém o canal BemVivendo.

PQN – Qual é o seu balanço final do FAMA?

T – O balanço final do FAMA é altamente positivo: foram mais de 170 atividades autogestionadas, a assembleia dos povos pela água com mais de 400 organizações trazendo suas pautas sobre as mais diversas variáveis, olhares e matizes. Debatemos a questão da água como alimento, água e território, saneamento nas grandes cidades, tecnologias sociais de preservação. Depois fomos para o Parque da Cidade e lá fizemos grandes plenárias, debates sobre experiências de luta e resistência, escrevemos juntos nosso documento final, tivemos uma grande assembleia de mulheres que homenageou Marielle Franco e outras mulheres também, pois acreditamos que não se acaba com injustiças sem acabar com patriarcado e machismo.

Tivemos a Assembleia de Povos Originários e Tradicionais pois acreditamos que esses povos têm uma receita para acabar com o desastre ambiental planetário, que nos permita conviver em harmonia entre humanidade e natureza. Também tivemos atividades paralelas, no domingo fizemos um tour por locais com alternativas e soluções no DF como o Santuário dos Pajés onde a preservação cultural dos povos indígenas e do bioma está sofrendo uma violação muito grande por conta da especulação imobiliária no setor noroeste, onde o metro quadrado é um dos mais caros do DF, o Sol Nascente que é a maior favela do Brasil onde o MTST tem um projeto de bioconstrução, e pelo Assentamento Canaã do MST na margem da bacia do Descoberto, onde existe um projeto de agrofloresta e de tecnologias sociais, captação de água da chuva como cisternas, coletas via telhados, barraginhas, curvas de nível, CSA funcionando também naquela região.

Além disso tivemos dois processos de luta externos: um ato contra a privatização da Eletrobras e a ocupação da Coca-Cola, no mesmo dia em que tivemos o nosso ato interreligioso e a nossa Marcha Mundial da Água. Foi uma série de atividades, mais de 7 mil pessoas de 37 países, mais de 200 pessoas dos 5 continentes. Foi um evento muito rico e não temos a menor dúvida que a gente sai desse evento muito fortalecido para a nossa luta por resistência dos territórios.
PQN – No Fórum oficial parecia, em algumas das salas, que não existe crise hídrica no Brasil. No entanto, faltou água em alguns bebedouros de “ilhas de hidratação” pois as torneiras foram fechadas ao ver que a água saía delas amarelada. O que você acha disso?

T – O fato de ter faltado água no Fórum oficial das corporações é bem emblemático. Assim como o fato do racionamento de água ter sido suspenso apenas na região do Fórum e dos hotéis, e apenas nos dias do evento. Foi mais uma das várias tentativas de maquiar os grandes problemas socioambientais nos quais vivemos. Quer se passar a ideia de que as grandes corporações têm capacidade de gestão, esconder o financiamento público imenso que foi usado para fazer o evento sem a necessária prestação de contas, o foco no interesse privado ao invés do público. Criamos o FAMA para enfrentar esta lógica de que a privatização seria a solução. Água é um direito dos povos e da natureza.
PQN – O FAMA deixa qual legado?

T – O legado do FAMA é essa força, essa voz, esse sentido de unidade. Saímos com o espírito fortalecido e sabendo que não estamos sozinhos, que há uma luta árdua pela frente mas sabemos que a vitória é possível. Acabar com a exploração e combater as estratégias de destruição do capital exige uma articulação ampla, este senso de coletividade e a confiança política gerada com os processos concretos do dia a dia para construirmos uma realidade justa socialmente, igualitária, com a maior dose de felicidade possível, onde humanidade e natureza vivam de forma integrada e onde seja possível o bem viver para todas e todos.
Para saber mais:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2018/03/11/interna_cidadesdf,665274/forum-alternativo-mundial-da-agua-brasilia.shtml

https://oglobo.globo.com/brasil/caixa-dagua-do-brasil-cerrado-encolhe-43-22518125

http://www.dw.com/pt-br/quanto-custa-a-%C3%A1gua-no-brasil/a-43042579

https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/unesco-propoe-solucao-verde-para-melhorar-gestao-da-agua-no-mundo.ghtml

https://oglobo.globo.com/brasil/agricultura-avanca-no-pais-pagando-pouco-pela-agua-1-22517986

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luciana

Luciana Sendyk escreve. Livros (autorais ou de terceiros), textos, anúncios, sites, blogs, peças de teatro, projetos diversos e, especialmente, aqui no PorQueNão?.Sanitarista de formação, ecossocialista por opção e vegana por ideologia, feminista e engajada, o que não falta é tema para redação. Acredita que escrever é um ato político e que atuar pode transformar o mundo.

 

 

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