Gerenciamento holístico para propriedades rurais já alcança 9 milhões de hectares no mundo

by | 3 Abr 2019

Gerenciamento Holístico promete aumentar áreas regeneradas no Brasil

 

O interessante nesse embalo que a agricultura e a pecuária regenerativa vem tomando é que grande parte dele é movido pela lucratividade. Muitos produtores já acordaram para o fato de que a produção que depende muito de insumos químicos, é cara, cria uma dependência financeira enorme e não é nem ecológica nem climaticamente resiliente.

– Eurico Vianna

PQN? – O que é Gerenciamento Holístico (GH)?

Eurico – O Gerenciamento Holístico é uma plataforma de gestão de propriedades rurais criada pelo ecologista e ambientalista Zimbabuano Allan Savory. Embora essa abordagem tenha sido criada para propriedades rurais nos climas áridos e semiáridos onde predominam as savanas e as pradarias ela pode ser usada em outros climas e biomas. A tomada de decisão, a gestão de recursos financeiros e o manejo holístico de pastagens, entre outros, são elementos essenciais que compõem essa abordagem.

 

PQN? – O que significa ‘holístico’ dentro do GH?

Eurico – O Allan Savory teve 4 insights sobre o papel dos animais na restauração dos processos ecossistêmicos. A gente pode falar sobre eles em um instante. Ele já havia entendido o papel fundamental dos animais herbívoros na restauração de áreas degradadas e combate aos processos desertificação. Ele percebeu que na natureza os animais herbívoros andam em manadas numerosas e densas para se defender de predadores e que esse adensamento e movimento constante pelas paisagens fertiliza e re-umidifica o solo por conta da quantidade de urina e esterco deixado pelos animais. Mas ele conta que mesmo já tendo esse conhecimento e tendo desenvolvido o planejamento holístico de pastagens, em algumas propriedades os resultados eram inconstantes. Fazendo um estudo do porquê da variação dos resultados nessas propriedades, ele percebeu que o problema na maioria das vezes era social ou de gestão financeira. À partir desse momento ele passou a incluir as ferramentas de tomada de decisão e gestão financeira que levassem em conta o contexto cultural, social e financeiro dos gestores. Dessa forma o termo ‘holístico’ nessa abordagem vem do grego holos, que significa ‘o todo’ e indica exatamente isso, a gestão do ‘todo. Incluindo desde os processos ecossistêmicos, a biologia, a produção, a tomada de decisão e a gestão financeira em uma propriedade.

 

PQN? – Você pode comentar quais são esses 4 insights?

Eurico – Então, o comportamento dos herbívoros que mencionei é um deles, mas deixe eu explicar na ordem correta esses 4 insights.

1º é de que uma perspectiva holística é essencial no gerenciamento. Essa perspectiva evita o pensamento reducionista ocidental e abraça a complexidade, nos convida a basearmos nossas decisão com base no ‘todo’ sob gerenciamento.

2º insight é de que os ecossistemas podem ser classificados dentro de um contínuo que vai de não-friável (1) até muito friável (10). A Escala de Friabilidade, como é chamada, é uma nova forma de classificar ecossistemas de acordo como a umidade é distribuída ao longo do ano e como a serrapilheira (vegetação morta) se decompõe. Nos extremos dessa escala os ecossistemas respondem de maneira diferente a influências iguais. O descanso, por exemplo, restaura a paisagem em ecossistemas não friáveis, mas causa danos nas paisagens muito friáveis.

3º se baseia na conexão presa-predador que mencionei acima. Em ecossistemas mais friáveis o uso de herbívoros em grandes números, adensados e constante movimento é essencial para a saúde dessas paisagens.

E, por fim, o 4º insight se baseia na descoberta que é o tempo e não o número de animais em determinada área que causa o sobrepastoreio e a compactação. Enquanto grandes números adensados e em constante movimento podem restaurar uma área, pequenos números pastejando sempre na mesma área tem um efeito degradante enorme.

 

PQN? – Você que é consultor, educador e comunicador na área,  tem percebido uma procura maior da sustentabilidade nos espaços rurais nos últimos anos?

Eurico – O interessante nesse embalo que a agricultura e a pecuária regenerativa vem tomando é que grande parte dele é movido pela lucratividade. Muitos produtores já acordaram para o fato de que a produção que depende muito de insumos químicos, é cara, cria uma dependência financeira enorme e não é nem ecológica nem climaticamente resiliente. O modelo de produção atual do agronegócio prende o produtor em uma cadeia de empréstimos, de serviços técnicos ”especializados’ (que na verdade são lobistas das corporações de sementes transgênicas, fertilizantes e agrotóxicos químicos) e de mercados e acordos de comercialização injustos. Alguns produtores percebem essa armadilha e embarcam em uma jornada de mudança e de aprendizado para recuperar sua autonomia, sua viabilidade econômica, a biodiversidade e a resiliência ecológica de suas propriedades.

Uma pesquisa de doutoramento, relativamente recente, feita por Charles Massy na Austrália e que acabou sendo publicada como um livro muito bem escrito, diz que em torno de 40% das pessoas que fazem essa transição para métodos de produção regenerativos já tinham algum tipo de inclinação ambiental ou ligação com essas áreas. Os outros 60% só fazem a transição quando passam por algum tipo de trauma, seja ele uma quase falência, um divórcio, a morte de um ente querido ou uma queimada na propriedade. O problema, no entanto, é que as abordagens regenerativas, especialmente na pecuária, ainda são a minoria, ainda estão às margens de um sistema predominantemente nocivo ao meio ambiente e a saúde humana.

Dois fenômenos complementares são muito animadores, nessa virada que começa a acontecer. Muitos jovens que tem feito o caminho de volta para o campo na busca por um estilo de vida mais harmonioso com a Terra. E muitos deles não tinham um histórico em áreas rurais e, por isso mesmo, eles querem aprender de tudo um muito e eles não têm preconceitos ou crenças que os prendam aos modos de produção convencional. Para eles aprender como produzir em sistemas florestais ou agroecológicos que restauram o solo, os ciclos da água, é o óbvio. É um desafio físico, intelectual e político. Frequentemente esses jovens encontram no campo pequenos produtores que, seja por inclinação ou histórico cultural, também já fizeram essa virada. Esses dois grupos aprendem muito um com o outro e se retroalimentam. É um diálogo muito produtivo.

Entretanto, é necessário que a sociedade como um todo apoie esse movimento. Quem não quer se alimentar bem, sabendo que sua comida não tem venenos e que ao ser produzida está restaurando estragos causados pela agricultura e pecuária corporativas? Mas para que isso aconteça é preciso valorizar as pessoas que produzem e valorizar os produtos que eles vendem. É preciso entender que para termos uma sociedade bem alimentada, sem que isso custe o planeta, as pessoas que vivem no campo precisam levar vidas dignas. É preciso entender que não é a dieta x ou y que vai ‘minimizar os impactos ambientais’. O que resolve a causa do problema é comprar nosso alimento, incluindo desde a base da pirâmide alimentar até o topo, direto do produtor que usa métodos regenerativos. É uma mudança cultural, um paradigma no qual o campo é repovoado por pessoas inteligentes, sábias, bem remuneradas e capazes de regenerar o planeta enquanto alimentam uma população crescente.

 

PQN? – O gerenciamento holístico de uma propriedade é o caminho para um ecossistema mais resiliente?

Eurico – O Gerenciamento Holístico nos convida a entender os 4 processos ecossistêmicos (o fluxo energético, o ciclo mineral, o ciclo hidrológico e a dinâmica das comunidades) para que a gente possa usar os animais e os métodos de produção escolhidos para restaurá-los. Dessa forma, na medida em que escolhemos o quê vamos produzir e como vamos produzir, a restauração da propriedade, assim como a produtividade passam a fazer parte do todo. Não são um problema ou uma externalidade a ser minimizada ou simplesmente colocada na conta de todos que vivem no planeta.

O resultado evolutivo, não ‘final’ porque o paradigma da abundância não tem fim, são propriedades mais biodiversas, resilientes e com água limpa.

 

PQN? –  Nos conte sobre sua turnê. Por onde já passou? Quais são os próximos passos?.

Eurico – Durante os cursos e consultorias os participantes vão ver como a pecuária e a restauração ecológica podem andar de mãos dadas.
O Gerenciamento Holístico já conta com mais de 5.000 proprietários/gestores e juntas essas pessoas já manejam quase 9 milhões de hectares de terra. Junto com nossos parceiros nós vamos promover essa modalidade inovadora no Brasil.

Nós organizamos uma Turnê com cursos e consultorias abertas (nas quais as pessoas interessadas em aprender podem pagar para ver como se dá o processo inicial de transição) com o educador, consultor e produtor rural australiano Graeme Hand. O Graeme é certificado pelo Instituto Internacional de Gerenciamento Holístico,  tem mais de 20 anos de experiência na área e é diretor executivo da Associação Australiana de Gramíneas Nativas (STIPA).


Já temos cursos e consultorias programados em Sorocaba (SP), Caseara (TO) e Aliança (TO). A turnê está acontecendo com a parceria da Escola de Permacultura e de duas fazendas no Tocantins. A Fazenda do Futuro e a Kehrle Pecuária, são ambas propriedades inovadoras nas questões da pecuária regenerativa e tem liderado esse movimento no Brasil. 

Os produtores rurais, instituições ou simplesmente as pessoas que queiram aprender como praticar uma pecuária regenerativa podem entrar em contato para participar das atividades já agendados ou para nos contratar para novos cursos e consultorias.

Além de disseminar o Gerenciamento Holístico no Brasil, nós pretendemos criar uma rede de apoio entre praticantes para em um futuro próximo promover um curso de certificação. Todos nós envolvidos nessa primeira turnê gostaríamos muito de ampliar nossa rede para que os cursos de formação possam ser oferecidos a pequenos pecuaristas também.

 

PQN? – Durante as viagens, qual é a sua percepção sobre o cenário ambiental do Brasil?

Eurico – Ano passado viajei para a Chapada do Veadeiros a convite do Coletivo Pólen, um grupo de jovens, quase todos arquitetos de Brasília, que desenvolve um trabalho muito bonito em parceria com moradores e ativistas locais. Eu cresci viajando para Chapada, mas havia mais de 10 anos que não voltava lá. Eu fiquei chocado com a magnitude do desmatamento no cerrado. A estrada que antes era cercada por um cerrado lindo, agora só tem monocultura de soja e de algodão, em quase toda sua extensão. Nessas fazendas praticamente não existe uma árvore! E para piorar, frequentemente esse desmatamento acontece nos chapadões mais altos e é possível ver a erosão assoreando e contaminando as grotas, córregos e riachos por onde antes corria água limpa.

Na Mantiqueira não foi diferente. Em 2018 eu estive lá com a Escola de Permacultura e pude explorar a área no exercício de leitura de paisagem do curso de Agricultura Regenerativa. Frequentemente os lugares mais altos são desmatados para dar lugar a capineiras. A má gestão do gado unida ao desmatamento tem causado degradação dos solos, erosão e desabamentos. É um lugar especial porque a pecuária está na mão de pequenos produtores, mas eles têm copiado práticas de manejo das criações, de silagem e cultivo do agronegócio corporativo. Para os locais, a paisagem degradada já se tornou ‘o normal’, mas qualquer pessoa com um pouco de entendimento dos processos ecossistêmicos identifica que grande parte da região está entrando em colapso. Eu quero muito produzir uma série de cursos voltado para os pequenos produtores no Brasil. Esses pequenos produtores tem amor pela sua região, tem apreço pela biodiversidade. Se as condições de aprendizado e transição forem oferecidas eles tem potencial para se tornarem os melhores guardiões desse tesouro que é a Mantiqueira.  

Eurico Vianna.

Doutor em sociologia pela Griffith University QLD, Australia).

Eurico vem de uma família de produtores rurais brasileiros e tem experiências em formações que variam desde Educação Física, Capoeira, desenvolvimento comunitário e desenho regenerativo. 

Eurico tem projetado e coordenado projetos sociais, facilitando cursos e vivências.

Dá consultoria na Escandinávia, Europa, Brasil e Austrália.

 

Curso de Agricultura Regenerativa – Nota da Escola de Permacultura

Temos o prazer de promover o segundo Curso de Agricultura Regenerativa em parceria com o Eurico Vianna, da Holos Regenerative Design, e tantos outros parceiros que estão tornando realidade essa turnê, agora com a vinda do educador Graeme Hand, trazendo muitos ensinamentos para o Brasil dentro da lógica da pecuária regenerativa.
A Escola de Permacultura hoje está situada na Serra da Mantiqueira, biorregião culturalmente marcada pelo manejo do gado leiteiro. Estamos vivendo no sul de Minas há 1 ano e pudemos perceber os impactos causados pela pecuária extensiva ao longo dos últimos anos e, ao mesmo tempo, temos conhecido pequenos produtores que adotaram sistemas menos dependentes. Mas sabemos que ainda há muito trabalho pela frente, e que para alcançarmos a cultura da permanência muita coisa precisa mudar, seja em nossas atividades diárias, seja nas políticas públicas.

Apesar de nossa proximidade com estas propriedades focadas na pecuária, o conteúdo do Curso de Agricultura Regenerativa foi pensado em contemplar também o público que já nos acompanha através da Escola de Permacultura, um público muito diversificado mas que concentra pessoas interessadas em ressignificar as suas profissões, suas relações e suas visões de mundo. Recebemos mulheres e homens de praticamente todas as idades, profissionais de áreas diversas, estudantes e empreendedores socioambientais.
O objetivo principal do Curso de Agricultura Regenerativa é criar uma plataforma que facilite a tomada de decisão, o planejamento, a gestão e execução de projetos coletivos, ecovilas e empreendimentos socioambientais. O curso é indicado para quem quer assumir a responsabilidade com a restauração ecológica, para quem tem uma propriedade e sonha torná-la produtiva causando impacto positivo, para aqueles que já fizeram o PDC (Curso de Design em Permacultura) e desejam se aprofundar no planejamento de propriedades, ou simplesmente para quem busca compreender a Permacultura sob abordagens ainda pouco utilizadas no Brasil: a Tomada de Decisão Holística e a Escala de Permanência da Linha Chave.


Local do Curso
O Curso de Agricultura Regenerativa acontecerá em maio na sede provisória da Escola de Permacultura, do dia 20 ao 29, e celebra o retorno do nosso amigo Eurico Vianna, que chega da Austrália para compartilhar com a gente dias de muita troca de conhecimentos, novas amizades, fortalecimento da rede Permacultura e, claro, aulas extras na fogueira (risos).

Investimento
1.780 reais (inclui alimentação, 72hs de aula, estadia em camping, apostila exclusiva online e certificado) com 25% de desconto válido até o dia 31 de abril (1290 reais).

Hospedagem e Alimentação
A hospedagem será em camping, onde temos 1 banheiro convencional com chuveiro de água quente e ducha higiênica. Além de um chuveiro externo, ao ar livre, onde tomamos banho observando a paisagem.

Nossa alimentação é ovo-lacto-vegetariana com opções para os veganos e damos preferência para os produtos locais, artesanais e agroecológicos.

Para visualizar o conteúdo completo do curso e todas as informações úteis acesse o site da escoladepermacultura.org (http://escoladepermacultura.org/cursos/curso-de-agricultura-regenerativa/) ou entre em contato através de nossas redes sociais:
Facebook: facebook.com/escoladepermacultura.org
Instagram: @escola.permacultura

contato@escoladepermacultura.org


Por Maria Clara
(co fundadora da Escola de Permacultura)

 

VIVIANE NODA

Empreendedora social e co-fundadora do PorQueNão?

Viviane Noda é comunicadora por natureza e acredita que sua missão de vida é encontrar soluções comunitárias.
Formada em administração com ênfase em marketing pela ESPM e especializada em Negócios Sociais pela metodologia Yunus, ela acredita que divulgar bons exemplos seja o respiro necessário para dar fôlego na caminhada de um futuro melhor.

Além de escrever, editar, filmar e coordenar, também dá consultoria de comunicação.

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