[headline type=”type2″ color=”#999999″ size=”h4″]A CRISE DO DESABASTECIMENTO PODE SER UM GATILHO DO BEM, TRAZENDO REFLEXÃO E MUDANÇA[/headline]

Ontem fui ao supermercado e não encontrei banana, feijão preto, limão. Na verdade a maior parte das prateleiras estava vazia, ou com uns produtos tipo ameixa seca espalhados de forma bem espaçada. Daí o funcionário explicou que a maior parte das coisas tinha acabado já há uns três dias. Oi? Peraí, a greve dos caminhoneiros começou e em meia hora não tinha mais nada nas gôndolas? Pode isso, Arnaldo? Para aumentar o meu espanto não tinha abacate – dentro do supermercado, porque na rua de trás tinha muito abacate maduro no pé da árvore, muito mesmo.

Tudo isso para a gente refletir que existem mais de dois lados nessa questão: você pode ser ‘contra o golpe’ ou ‘a favor da intervenção militar’ ou, ainda, pode ser como a gente: a favor de uma mudança profunda na forma de se relacionar com o alimento e, enfim, de consumir. Afinal, a gente não quer só coxinha, a gente não quer só mortadela, a gente quer vegetais e diversidade!

Ontem mesmo publicamos sobre como coletar seu próprio alimento na maior agrofloresta urbana do Brasil pode ser libertador, e o mesmo se aplica às hortas urbanas, sejam comunitárias em praças públicas ou terrenos particulares, sejam domésticas. A palavra mais linda da estação é agroecologia! E sobre esse assunto temos duas coisas para contar – não, temos inúmeras (a gente mesmo descobre uma novidade a cada dia) mas selecionamos, hoje, dois fatos.

Para transformar agroecologia de coisa mais linda em solução, é preciso: um, que ela caia no gosto do freguês – e para isso é necessário apoio institucional para implementar de forma massiva essa forma de produção. E dois, conhecimento: nós, seres pensantes antenados e transformadores, temos que semear o conhecimento. Então, o segundo texto é um be-a-bá sobre o que é essa sabedoria ancestral com cheiro de hype.

Sobre políticas públicas, o boa nova é que a revolução agroecológica já começou em Florianópolis. O primeiro Projeto de Lei que cria a política municipal de agroecologia e produção orgânica, de autoria do vereador Marcos José de Abreu (PSOL), o Marquito, foi aprovado. A PL estabelece as políticas fundamentais para manutenção das hortas nas escolas, nos centros de saúde, nos CRAS, nos CAPS, hortas comunitárias, individuais e feiras agroecológicas. 

Já existe em Floripa a Rede Semear de Agricultura Urbana e Agroecologia, que é composta por servidores públicos de várias secretarias e pela sociedade civil, garantindo mais de 70 escolas públicas com hortas e compostagem implantadas, e viabilizando a Política de Práticas Integrativas e Complementares na Saúde (PICS) com hortas de plantas medicinais em mais de 50% dos Centros de Saúde da cidade. 

Floripa, uma cidade que tem práticas tradicionais e históricas de agricultura de base ecológica, que garantiram a subsistência dos primeiros moradores da região, passa assim à vanguarda da produção de alimentos orgânicos de forma sustentável e segura. Nossos entusiasmados aplausos! E para ajudar a conceituar e disseminar informações, o texto do engenheiro agrônomo Rafael Madureira explica o que é e o caminho para fazer a transição agroecológica.

Bora se informar e espalhar a boa nova? Você não vai querer se estapear com seu vizinho por causa de um tomatinho murcho cheio de veneno, vai? Ao invés de chamar para ‘conversar na esquina’, convida ele para plantar uma horta na esquina do quarteirão de vocês!

Esse é um vídeo que a gente fez com o Marquito há algum tempo, mas que se revelou visionário. 

TRANSIÇÃO AGROECOLÓGICA: UM PASSO PARA O FUTURO

Por Rafael Madureira*

Agroecologia

Atualmente se ouve falar muito sobre agroecologia. Existe uma noção intuitiva sobre o termo, sempre relacionado com a produção de alimentos mais saudáveis, conservação do meio ambiente e relações de trabalho mais justas. Podemos definir agroecologia como a ciência que estuda o sistema ecológico e sócio-produtivo envolvidos em um agroecossistema, considerando o conjunto de animais, plantas, demais fatores produtivos, as pessoas envolvidas no meio rural e o ecossistema ao redor.

Agroecologia é a aproximação da Ecologia com a Agronomia, das Ciências Biológicas com as Ciências Humanas, do conhecimento popular com a produção acadêmica, um esforço multidisciplinar focado em apresentar conceitos e metodologias para estudar, manejar, desenhar e avaliar agroecossistemas, buscando a utilização de princípios ecológicos para a construção de sistemas sustentáveis.

Por que Agroecologia?

Num mundo altamente povoado, no qual há pobreza e fome, surpreende saber que a maior parte das pessoas que vive em insegurança alimentar não são consumidores urbanos, mas sim camponeses produtores. Três quartos dos indivíduos subnutridos do mundo pertencem ao meio rural. São camponeses mal equipados, instalados em regiões desfavoráveis, trabalhadores agrícolas, artesãos e comerciantes ligados entre si, excluídos da economia pelo processo de empobrecimento.

A revolução agrícola que ocorreu na segunda metade do século XX, com aumentos contínuos de produtividade pelo desenvolvimento de mecanização e uso de petróleo, moléculas fitossanitárias, fertilizantes e engenharia genética, proporcionou uma queda significativa dos preços de produtos agrícolas. Os ganhos na produção de alimentos, neste período, superaram os da indústria e serviços. 

No entanto não houve desenvolvimento social, mas sim grande desigualdade de renda do trabalho entre estabelecimentos e entre regiões; a eliminação, pelo empobrecimento, da maioria dos estabelecimentos; poluição; desequilíbrio da oferta e demanda e grandes flutuações nos preços de produtos agrícolas. Frente a isso, os agricultores menos equipados e os menos produtivos viram sua renda desintegrar-se. Incapazes de investir e de se renovar, foram condenados ao atraso e à consequente eliminação, fomentando o êxodo agrícola e o aumento da pobreza rural e urbana.

A crise dos camponeses é uma crise generalizada da sociedade, pois a degradação dos estabelecimentos agrícolas estende-se a todo seu entorno, com prejuízos no ecossistema, má nutrição das plantas, animais e homens, de modo que a não durabilidade econômica do sistema produtivo leva a não durabilidade ecológica do sistema cultivado. A sobrevivência do estabelecimento camponês cuja renda cai abaixo do limite de renovação, só é possível pela descapitalização, pelo subconsumo e pela subalimentação, encontramos assim alguns motivos que levam os camponeses ao estado de subnutrição.

Sendo a agroecologia uma abordagem que considera a natureza sistêmica da produção de alimentos, equilibrando preocupações relacionadas à ecologia, justiça social e viabilidade econômica, tendo assim como objeto de estudo a união entre a conservação, a produção e a inclusão social, é inegável que este tipo de abordagem torna-se necessária para irmos além do desenvolvimento agrícola que novas técnicas produtivas já nos proporcionaram nas últimas décadas e alcançarmos um desenvolvimento agrário por completo, considerando a produção, a ecologia e, principalmente, as pessoas envolvidas no meio rural.

Transição Agroecológica

A Transição Agroecológica é o processo gradual de mudança nas formas de manejo dos agroecossistemas, tendo-se como meta a passagem do atual modelo de produção de baixa sustentabilidade para estilos de agricultura que incorporem princípios, métodos e tecnologias de base ecológica. É também um processo social, que implica em mudanças de atitudes e valores dos atores sociais em relação ao manejo e conservação dos recursos e do seu papel como parte da coevolução da humanidade com a natureza.

Frente a todos os motivos para mudar de paradigma e adotar a agroecologia como meio de desenvolvimento rural, é importante lembrar que, como meio de construção coletiva do saber, a agroecologia não dita regras, considera a realidade de cada estabelecimento e seu entorno. Cada agricultor buscará modificar segundo suas necessidades e potencialidades.

Ainda que não exista uma regra para a transição, podemos destacar alguns pontos importantes no caminho, como a racionalização do uso dos recursos. Num primeiro momento é importante que o agricultor busque aumentar a eficiência das práticas convencionais para reduzir o consumo de insumos, ou seja, ir usando cada vez menos produtos, tentando diminuir a dependência. Junto a esse uso mais racional, o agricultor deverá visar a substituição das práticas e insumos convencionais por práticas e insumos alternativos. Este é um momento que exige estudo, pois envolverá a aquisição de novos conhecimentos em relação ao manejo agrícola. Nesse período serão fundamentais a troca de experiências entre os agricultores e uma assistência técnica comprometida com a agroecologia. 

Com o conhecimento de práticas sustentáveis, a consciência de sua atuação como sujeito criador e mantenedor de agroecossistemas, e seu papel na manutenção da herança agrária da humanidade, o agricultor poderá projetar seu estabelecimento, desenhando-o conforme um novo conjunto de processos ecológicos e sociais, conjugando produção de alimentos, ecologia e bem estar.

Para auxiliar o agricultor no processo de transição, há uma ampla produção científica e também financiamentos voltados especificamente para a produção agroecológica. O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), possui linhas de crédito especiais para transição e produção agroecológica. Em relação à pesquisa e produção de tecnologias a EMBRAPA é referência mundial em agricultura nos trópicos, dedica-se a pesquisas em agroecologia em vários de seus polos e especialmente no Sistema Integrado de Produção Agroecológica (SIPA), mais conhecido como Fazendinha Agroecológica Km 47, localizada na cidade de Seropédica/RJ e mantida em conjunto pela Embrapa Agrobiologia, UFRRJ e PESAGRO com o intuito de se tornar uma vitrine da produção agroecológica. Diversas universidades brasileiras desenvolvem pesquisas em agroecologia, além de incentivo e capacitação de serviços de extensão rural, sempre buscando estreitar os laços entre a produção científica, o diálogo com o conhecimento popular e a pronta disponibilidade de aplicação das tecnologias e pesquisas para os agricultores.

Links úteis:

Fichas Agroecológicas MAPA (Apoio técnico):

http://www.agricultura.gov.br/assuntos/sustentabilidade/organicos/fichas-agroecologicas

Projeto Transição Agroecológica Embrapa:

https://www.macroprograma1.cnptia.embrapa.br/agroecologia

Fazendinha Agroecológica Km 47:

https://www.embrapa.br/agrobiologia/fazendinha-agroecologica

Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Brasil Agroecológico):

http://www.mda.gov.br/planapo/

http://www.agroecologia.gov.br/

Referências

ALTIERI, Miguel. Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. 4ªed. – Porto Alegre : Editora da UFRGS, 2004.

CAMARGO, Paula. Fundamentos da Transição Agroecológica: Racionalidade Ecológica e Campesinato. Agrária, São Paulo, nº7, pp. 156-181, 2007.

MATRANGOLO, Walter José Rodrigues. Contextos da Transição Agroecológica na EMBRAPA. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 36, n. 287, 2015.

MAZOYER, Marcel; ROUDART, Laurence. História das agriculturas no mundo: do neolítico à crise contemporânea [tradução de Cláudia F. Falluh Balduino Ferreira]. – São Paulo: Editora UNESP; Brasília, DF: NEAD, 2010. 568p.

MEDEIROS,Carlos Alberto Barbosa.Transição agroecológica: construção participativa do conhecimento para a sustentabilidade – resultados de atividades 2009|2010 / Editado por Carlos Alberto Barbosa Medeiros, Flávio Luiz Carpena Carvalho, André Samuel Strassburger – Brasília, DF: Embrapa, 2011.

*Rafael Madureira é Engenheiro Agrônomo pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais, Secretário da Associação dos Produtores Orgânicos de Mococa e Região e interessado em modelos sustentáveis de desenvolvimento rural.

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luciana

Luciana Sendyk escreve. Livros (autorais ou de terceiros), textos, anúncios, sites, blogs, peças de teatro, projetos diversos e, especialmente, aqui no PorQueNão?.Sanitarista de formação, ecossocialista por opção e vegana por ideologia, feminista e engajada, o que não falta é tema para redação. Acredita que escrever é um ato político e que atuar pode transformar o mundo.

 

 

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