O desafio de permanecer otimista no Brasil pós eleições

by | 25 Jan 2019

Não tá fácil pra ninguém.

Não é raro escutar, de amigos e colegas, palavras pessimistas sobre o horizonte que avistamos com o novo governo que tomou posse recentemente. A sensação de ressaca eleitoral parece que nunca passa e o fôlego nunca parece recuperado, diante do desafio que é fazer oposição às ideias nocivas e à implementação de retrocessos. Particularmente, tem sido muito fácil ter insatisfações para enumerar. A minha indignação nunca esteve tão em alta. Nem nunca fui tão fluente em sarcasmo.

A propagação de discursos de ódio, racismo, machismo, homofobia; completo despreparo político, diplomático e econômico; absoluto descaso com os direitos humanos; e o analfabetismo ambiental e social, fazem as críticas fluírem quase que automaticamente. Sem contar o discurso voraz anticorrupção, que têm se mostrado frágil diante dos escândalos apontados para a família Bolsonaro. (Tá, parei. Eu disse que era fácil reclamar.) No entanto, a lista de absurdos é tanta que, às vezes, supera a capacidade de reclamar e promove um esgotamento de energias, colocando em dúvida a eficiência e utilidade de tanta luta e resistência.

O sentimento de frustração e impotência faz com que a gente se sinta bobo nos momentos de otimismo, seja esse um julgamento externo ou interno. Ele nos inunda de todos os lados e aí, quando não estamos desmotivados com esse cenário, somos bobos por achar que a situação pode melhorar.

 

Mas a verdade é: nunca foi fácil, gente.

Não é fácil há muito tempo, pra muita gente. Tanto que, dentro de vários recortes sociais onde sempre houve opressão pela sociedade e pelo Estado, esse horizonte é visto, não como uma estranheza terrível, apenas como um escancaramento de algo que se tentava esconder. Para esses indivíduos, resistência nunca foi novidade.  E, é importante lembrar que em um momento tão conturbado, desgastante e – ouso dizer – perigoso como esse, pedir força e protagonismo ativo para essas pessoas que existem à margem, é, no mínimo, cruel.

 

“ok, Mas e quanto ao ativismo ambiental?”, você me pergunta.

 

Também nunca foi fácil. Não era fácil nem mesmo nos governos anteriores, cujo discurso simulava preocupação com o meio ambiente, e na prática o que imperava era o descaso. Samarco manda lembranças.

Sinceramente, por vezes o esforço se assemelha à tentativa de desviar o curso de um rio usando um galho, e acredito que esse deva ser o sentimento em diversos outros movimentos sociais por igualdade/equilíbrio. Nesse contexto, é importante lembrar que a tentativa de separar os problemas sociais, ambientais, políticos e econômicos, que enfrentamos e vamos enfrentar, não passa de um reducionismo ilusório e muito pouco efetivo: todos estamos dentro das mesmas estruturas e fazemos parte de um sistema que nos conecta.

Não podemos esquecer, é claro, que se não tivermos um ambiente que sustente as várias formas de vida que habitam esse planeta e que dependem umas das outras, incluindo nós, Sapiens, todo e qualquer senso de luta, seja ela qual for, vai se perder. A nossa vida depende de mais vidas do que podemos supor, e negligenciar isso é um erro que está se mostrando irremediável.

 As pessoas não são más, elas só estão perdidas. Ainda há tempo.

– Criolo

A Viviane Noda disse que se a gente consegue dar as mãos pro otimismo agora, é porque a gente acredita muito no lado altruísta das pessoas. E, realmente, nós acreditamos no potencial dessa coisa incrível, imprevisível, criativa e diversa chamada humanidade – que é capaz das mais fantásticas demonstrações de amor e dos mais terríveis pesadelos. Nós acreditamos no potencial de cada indivíduo dentro do seu micro universo, transbordando para o macro, servindo de exemplo, promovendo mudanças e buscando o aprimoramento próprio. No final das contas, a gente acredita que as coisas vão melhorar.

Nesse sentido, me recordo da Lara Lutzemberger (filha do José Lutzemberger), dizendo que quando uma árvore cai, o barulho é estrondoso e chama a nossa atenção, mas que ninguém escuta os vários brotos que nascem todos os dias.

Então, por mais que a situação esteja difícil e que os horizontes que vemos sejam sombrios, é nesse contexto que, mais do que nunca, precisamos lutar pelo que acreditamos, dentro das nossas possibilidades. Mais do que nunca, precisamos permanecer otimistas (e veja bem, permanecer é muito diferente de parecer). Mais do que nunca, precisamos encontrar luzes no nosso caminho e forças para continuar caminhando. Caso contrário, por mais confortável que possa parecer a posição de ficar sentado reclamando, vamos perceber que, na verdade, essa posição nos deixa parados no escuro, sem conseguir ver a saída.

No tocante a essa questão, pessoal:

“A ÚNICA COISA PERMANENTE É A MUDANÇA”

– Heráclito de Êfeso (540-470 a.C.)

Betina Aleixo

Designer ativista

Acredita que a comunicação é uma poderosa ferramenta para promover mudanças. Por isso, trabalha em diversas áreas da comunicação e encara essa profissão com muita responsabilidade. Integrante da equipe do PorQueNão?, designer freelancer e comunicadora ativista socioambiental.

“Eu sou muitas coisas. Ser designer é apenas uma delas”.

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