O plano que pretende salvar o planeta, Green New Deal

by | 22 Fev 2019

MUDAR O SISTEMA FINANCEIRO, ZERAR A EMISSÃO DE CARBONO E COLOCAR ALIMENTOS SAUDÁVEIS EM TODOS OS PRATOS: AMBIÇÃO E INTELIGÊNCIA APLICADAS PARA TRANSFORMAR OS EUA (E INFLUENCIAR O MUNDO)

Utópico e socialista – no melhor sentido dos termos. Assim é o Green New Deal, plano verde proposto por representantes da esquerda norte-americana para brecar a destruição planetária na próxima década. Verde em um duplo sentido, o plano tem como meta zerar a emissão de carbono até 2030 através de um guia de ações ainda “verde”, que deve amadurecer a partir do aporte de ações concretas dos legisladores (muitos dos quais, de olho nas eleições de 2020 – um grande apelo do plano lançado agora). A bandeira do Novo Plano Verde é empunhada por dois expoentes democratas: a estrela em ascensão Alexandria Ocasio-Cortez e o senador Ed Markey. Na verdade, são duas bandeiras também: embora os holofotes estejam no assunto mais literalmente quente do momento, o aquecimento global, outro viés que merece forte apelo é a questão financeira. Os autores identificam duas crises interdependentes, uma ambiental e outra econômica, nos EUA de hoje. Bom, sabemos que o capitalismo visa ao lucro, e quem gosta de lucro não necessariamente gosta de políticas públicas que troquem exploração de recursos por preservação e respeito à natureza. Daí que o plano foi recebido com ironias e tentativas de ridicularização por alguns setores menos dispostos à mudança. Não é novidade que a defesa da natureza é encarada como coisa de hippies, mas também a atitude das corporações frente esforços ambientalistas não surpreende mais ninguém. Basta consultar o manual da Vale (aquela que tirou o Rio Doce do mapa, ops, do nome): lá diz que a missão, visão e valores da empresa é permeada pela “paixão pelas pessoas e pela natureza” (sic)

“Resolver uma crise sem precedentes exigirá uma ambição sem precedentes. A mudança climática é uma ameaça às nossas vidas” Alexandria Ocasio-Cortez

Paixão, aliás, é uma palavra que vem à mente quando se pensa em Alexandria Ocasio-Cortez, a representante que é gente como a gente até o último fio de cabelo. Ela desperta amor ou ódio, mas nunca indiferença, entre gregos e troianos, democratas e republicanos. Quando tentam desmoralizá-la divulgando uma dancinha no corredor da faculdade ela faz o que? Dancinha no congresso. Quando lembram que ela não passa de uma ex-garçonete que ralava de dia e estudava de noite, ela diz: “entendo a dor dos americanos da classe trabalhadora porque experimentei essa dor”. Ela é bem humorada, autêntica, inteligente, engajada. Em uma palavra: atraente. Mais pop do que Madonna, graças a ela o capitólio virou assunto de millennials e figurinha fácil no Instagram. O primeiro discurso parlamentar da representante mais jovem a chegar ao congresso dos EUA (29 anos) bateu todos os recordes de audiência e foi assistido por um milhão de pessoas em apenas 12 horas. Pouco, perto de uma aparição em atividade parlamentar sobre financiamento de campanhas que alcançou 37 mi de visualizações. Mas AOC, como Alexandria já é chamada entre os fãs, não integra o Comitê sobre crise climática, mas sim o de serviços financeiros. Prova de que a moça acredita que investir em regulamentação bancária pode impactar no aquecimento global. O PLANO NO PRATO Alimentação e agricultura são responsáveis por 9% das emissões de gás carbônico dos EUA, e estão presentes nas páginas do Green New Deal, que destaca a importância de “trabalhar colaborativamente com agricultores para eliminar a poluição e a emissão de gases relacionados ao efeito estufa que provém do setor agrícola” e propõe apoiar a agricultura familiar “investindo em agricultura sustentável e práticas de uso da terra que aumentem a saúde do solo, criando um sistema alimentício mais sustentável, que garanta o acesso universal à comida saudável”. O QUE É O GREEN NEW DEAL? O objetivo do plano é transformar a economia para que, em 2030, 100% da energia seja limpa, renovável e com emissão zero de dióxido de carbono. O próprio nome do plano é inspirado no New Deal, conjunto de reformas na indústria promovidas no governo de Franklin Roosevelt, que recuperou os EUA após a recessão que se seguiu à quebra da bolsa de valores em 1929. O Green New Deal pode ser entendido como uma chamamento, mais do que um planejamento estratégico. A ideia é que os legisladores pensem em projetos para realizar uma transição econômica tendo a energia limpa como meta. Para entender as dimensões políticas e estruturais do plano, recomendamos a leitura dos textos de Naomi Klein e Kate Aronoff e no Intercept. OBS.: Este texto foi baseado em alguns artigos em português e um em inglês, generosamente traduzido pela porquenista Clarice Nilles. A ela, nosso agradecimento. .

Luciana Sendyk

 

Escritora

Escrevo livros (autorais ou de terceiros), textos, anúncios, sites, blogs, peças de teatro, projetos diversos e, especialmente, aqui no PorQueNão?. Sanitarista de formação, ecossocialista por opção e vegana por ideologia, feminista e engajada, o que não falta é tema para redação. Acredito que escrever é um ato político e que atuar pode transformar o mundo.

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