30 de Novembro de 2017

Anotações a partir de um final de semana com o professor Ernst Gotsch 

De que fala Ernst Gotsch quando fala de agricultura? Certamente não é apenas sobre espécies, consórcios, adubos (muito menos químicos). O senhor Ernesto, quando fala de agricultura sintrópica, fala é de leis universais. E dá cada puxão de orelha nos humanos…

“O ser humano afasta floresta.
Não pode ver um matinho que arranca, põe fogo.
Transforma todas as florestas em estepe e deserto.
O humano não gosta de fotossíntese.”

Segundo Ernesto (como é chamado pelos alunos mais próximos), não existe deserto que não seja produzido pelo ser humano. Sabe o Saara, aquele grandão, que a gente acha que sempre foi assim? “Todas as civilizações que existiram até agora sumiram por escassez de recursos”. O ser humano usa tudo, extrai, tira até a última gota. A terra seca, a água acaba, acabou.

Já a agricultura sintrópica é “uma forma de produzir comida que é benéfica para todos os envolvidos”. Sintropia são processos que vão do simples para o complexo, e o resultado é um saldo positivo tanto na quantidade quanto qualidade de vida consolidada e no equilíbrio do planeta inteiro—conta Ernesto. E dá os princípios, que são baseados em leis universais:

(as explicações são todas de anotações que fiz durante um curso com Ernst Gotsch no Sítio Semente, em novembro/17. Foi tudo ele que disse, a não ser quando especificado)

1 // As relações inter e intra específicas são baseadas no amor incondicional e na cooperação.

E não na concorrência e na competição fria. Isso é a filosofia do capitalismo.

Por exemplo: os predadores—como jaguatirica, onça, gavião—usam a fome para cumprir a função deles. Eles caçam visando otimizar o ecossistema. Se tem animal demais eles caçam pra diminuir a população, caso contrário vai haver fome entre as populações.

2 // Cada indivíduo, de cada espécie, aparece equipado para realizar as suas tarefas e cumprir as suas funções movido pelo prazer interno.

(estranhamente não tenho anotações deste princípio, que é o que mais amo. aqui vai então a minha explicação, como eu entendo isso: trabalho é função. ele tá falando de animais, insetos, plantas e etc, que têm, todos, prazer interno, isto é, eles não precisam pensar pra saber o que eles têm que fazer no mundo, eles vão lá e fazem e com isso se realizam enquanto seres viventes. mas isso também se aplica ao humano. quando tu acha a tua função no mundo, tu faz o que tem que ser feito (o trabalho) com imenso prazer interno. que tu não tenha prazer nenhum no teu trabalho é um indicativo de que aquela não é a tua função no mundo. no meu entender, não é a função de ninguém ficar sentar na frente de um computador 8 horas por dia produzindo apenas dinheiro)

3 // Todos os indivíduos de todas as gerações de todas as espécies são equipados para comunicar com todos os outros.

O ser humano perdeu isso. Acha que é o mais inteligente de todos.
Viramos autistas e não somos mais capazes e nem estamos abertos para se comunicar.

___

Ernesto confirma o que já ouvimos também de outras fontes (eu, especificamente, associo os princípios da agricultura sintrópica ao livro Ishmael, de Daniel Quinn, e ao Presence Process, um protocolo de respiração/meditação sistematizado por Michael Brown—por mais estranha que essa combinação possa parecer). Então ele diz:

“A vida no planeta terra é um grande macro-organismo.
Espécies ou indivíduos são células dentro do grande macro-organismo vida.
A regeneração do indivíduo é a regeneração da célula”.

(Michael Brown diz que não há como uma parte estar bem se as outras não estão, já que somos todos um. E por isso o egoísmo e a ganância são contra-produtivos: não tem como um indivíduo ganhar ao tirar algo de outro, porque são ambos um só, então é como tirar de si mesmo)

Mas o humano enveredou pelo caminho da hierarquia, achando que tudo no mundo está aqui para servi-lo. Nos achamos os inteligentes, o topo da cadeia alimentar moderna. Ernesto rebate:

“Não somos os inteligentes, somos parte de um sistema inteligente.
Se a gente descer do pedestal podemos ter chance”.

“O comportamento de todas as espécies, com exceção do ser humano moderno, é baseado no imperativo categórico de Kant que diz ‘age de tal maneira que tu queiras que os princípios submetidos às suas interações sejam elevados a princípios de leis universais aplicados a ti mesmo'”.

Ou seja:

“Aquilo que tu faz tu queres que seja aplicado em ti mesmo imediatamente.
As plantas e animais se comportam assim”.

Já o homem vê no outro o mal que tem dentro de si:
“A gente acha que tem praga e parasita e ervas invasoras porque a gente É praga e parasita e invasor”.

Um dos alunos do curso é um pecuarista que está tendo problemas pois suas vacas brigam. Foi procurar a opinião do mestre e quase acaba no divã:

“Você tava falando de vaca brigando.
Isso é um espelho. Tudo é um espelho.
Isso está em você.
Age de modo diferente: o mundo muda.
Vira gente!”

(parece que as vacas do cara passam o dia inteiro no sol, não tem uma sombrinha pra elas, afe)

A busca pela coerência e auto-responsabilidade também permeia os ensinamentos de Ernst. Na visão da agricultura sintrópica, a agricultura orgânica é igual à agricultura convencional, mas sem os petroquímicos. E é usada de exemplo de contradição: a agricultura orgânica usa cocô de galinha de granja para adubação. “Mas ao usar cocô de galinha de granja a gente participa indiretamente daquilo que a gente critica, o desmatamento para plantar soja e milho — que é o que a galinha come nas granjas”. Além do que, na produção de ovos orgânicos até 98% da alimentação das galinhas pode ser transgênica.

(mas sem julgar: “Se você já faz o bem, você tem que ter compaixão com quem ainda não consegue fazer o bem”).

É a deixa para ele dizer que agricultura sintropica é agricultura de processos e não de insumos. Ou seja, é um conjunto de técnicas que independem de alimentação externa. Não é o adubo que vai fazer a mágica, não é o calcário, não é o esterco. São os processos de sucessão natural, uma coisa depois da outra, uma espécie ajudando e dando lugar a outra. “Todos eles em conjunto torcem para que aqueles que podem, possam”, diz, sobre a sucessão das árvores em uma floresta.

“É agricultura de informação. As plantas se comunicam. As raízes se comunicam”.

E eu, que já fui arquiteta de informação e agora estudo agricultura sintrópica mas não tenho uma agrofloresta, parece que virei mesmo agricultora de informação, já que estudo para escrever. Vai ver minha função no mundo (além de afofar bichos) é propagar ensinamentos como esse: não tem só um jeito de fazer as coisas. Dá pra fazer diferente. Especialmente frente aos absurdos que a gente toma como o “normal”.

Como pregou Ernesto em vários momentos do curso: Desobediência coletiva!
Para não ser conivente com os absurdos.

“Somos integrantes do departamento de organização dos processos de vida”. Nem mais, nem menos que qualquer célula do grande macro-organismo que é a vida. “Vamos buscar formas”. Novas formas. Sintropicamente.

***

Para quem quer saber mais sobre agricultura sintrópica:
http://herbivora.com.br/o-que- e-agricultura- sintropica/

Saiba mais sobre o trabalho do Ernst:
agendagotsch.com

***

ale nahraEscrito e vivido pela colunista Ale Nahra.

Escrevo na Herbivora e no Medium, gosto de dançar, cozinhar, plantar, cuidar de bicho (inclusive gente). Estudo permacultura, agroecologia, agrofloresta e agricultura urbana. Tenho uma horta na laje de um sobrado em São Paulo, sou voluntária de proteção animal, danço forró, cozinho comida vegetariana e agrobiodiversa.

Siga a página oficial da Hebívora: facebook.com/aherbivora