PAINEL DE ALIMENTAÇÃO SUSTENTÁVEL FOI NUTRITIVO, SABOROSO – E PROVOCADOR

by | 9 Ago 2018

UM DOS EVENTOS MARCANTES DO FESTIVAL SETOR CULTURAL SUL MOSTROU QUE LUGAR DE MULHER É ALIMENTANDO O MUNDO

 

Dizem que comida gostosa não enjoa. E o painel de alimentação sustentável que aconteceu no sábado de manhã, do lado de fora do SESC, provou essa máxima: apesar de conhecer de cor e salteado o tema, a discussão trouxe reflexões novas e surpreendentes. As conversas foram tão apetitosas que eu – e todo mundo que estava lá – saboreei cada bocado.

Sabe quando você troca os ingredientes e o prato acaba ficando ainda melhor? Então. O evento acabou virando uma mesa sobre feminismo. A começar pelas participantes, todas mulheres. Até mesmo a Central do Cerrado, que havia confirmado a presença do Luis Carrazza, acabou sendo representada pela Ildete Sousa. Não sei se o Luis tinha outro compromisso na agenda ou apenas foi cavalheiro e cedeu a sua vez a uma mulher, mas foi muito rico ter a presença de uma pessoa que  tem a produção de alimento inserida no cotidiano, como forma de vida. Inclusive ela trouxe um pacote de castanhas de Pequi para o público conhecer o produto e só posso dizer o seguinte: experimente. Além de ser uma delícia, é nutritivo em todos os sentidos do termo. Acalmou a fome e alegrou o coração. Até porque a gente ouviu uma história linda da Ana Paula Boquadi, que contou que estava no Xingu participando de um estudo sobre extrativismo sustentável e que lá as colhedeiras cantam para as árvores, para que as castanhas nasçam felizes <3 <3 <3

Vai me dizer que comer isso não tem uma energia especial? O tema do painel pode ser resumido a partir desta imagem de cantar para as castanhas: como você alimenta o mundo e como o mundo alimenta você?

A Ana Paula foi a primeira a falar, pois ela precisava sair mais cedo para, justamente, cozinhar. O prato do dia do Buriti Zen (shitake gratinado) dependia da chef chegar na hora e, diga-se de passagem, a gente almoçou lá e pode atestar que estava simplesmente maravilhoso – daqueles que ninguém acredita que não leva nenhum ingrediente de origem animal e nós, vegetarianos estritos, damos aquele sorrisinho de canto de boca, ‘tá vendo?’. O Buriti Zen é o ponto de encontro da alimentação saudável em Brasília. Só quem não entra lá é o glúten: a Ana explicou que a alergia ao glúten é, na verdade, alergia ao agrotóxico glifosato. E que as farinhas atuais são resultado de uma seleção que produz farinha com o máximo de glúten, propositalmente, para ficar viciante ao máximo.

O glúten também apareceu no nosso painel na fala seguinte, da Tainá Zaneti, representante do Movimento Slow Food no convívio Cerrado. Ela brincou que o ingrediente, vilão da alimentação desses últimos tempos, vai receber uma carta do ovo dizendo “calma, isso vai passar, aguenta aí que a lactose já tá chegando!” A Tainá lembrou que a cacofonia alimentar, que elege mocinhos e bandidos, alimentos milagrosos e perigosos, mostra como é importante reconhecer quem está enriquecendo com o alimento que a gente come.

A Renata Navega, da Rede CSA Brasília, falou sobre o desafio de trazer o visível para o invisível e trouxe para a mesa o conceito de violência sutil, aquela que a gente pratica todo dia porque ‘é o normal’ e que atinge o mundo e a nós mesmos. Muita gente, mulheres na imensa maioria, já foi para a fogueira por enxergar o invisível. Mas, no prato nosso de cada dia, há mais do que comida: tem também reflexão, afeto, memórias, experiências. Até sobre um prosaico cafezinho pairam perguntas: de onde veio o grão de café, quem é a pessoa que plantou? Quem preparou a bebida? Quem está servindo? E quem está tomando esse café?

A vida de quem produz alimentos foi justamente o tema da fala seguinte, da Ildete. Ela trouxe a experiência de quebradeira de coco no Maranhão, uma das cooperativas que integram a Central do Cerrado, onde ela trabalha hoje. Ela cresceu em um meio em que as mulheres viviam limitadas apenas aos cuidados domésticos, e viu como a inserção no processo extrativista sustentável mudou suas vidas, empoderando e oferecendo escolhas e ferramentas de enfrentamento por igualdade. Essa realidade, que cabe numa só frase, é na verdade do tamanho do mundo e, talvez, a fala mais importante de todo o festival. É aquele temperinho que faz toda a diferença; a fala da Ildete mostrou como, na prática, uma atitude de cooperação pode mudar a vida de toda uma comunidade.

O painel de alimentação sustentável foi mediado pela Bruna de Oliveira, do PorQueNão?, que é especialista em Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC). Todo mundo que estava lá saiu alimentado, com a alma repleta de novas reflexões e o coração acalentado pelas histórias das palestrantes. Afinal, quem alimenta o mundo se não as mulheres, responsáveis pelo primeiro e melhor alimento que todos nós recebemos?

Luciana Sendyk

Escritora

Escrevo livros (autorais ou de terceiros), textos, anúncios, sites, blogs, peças de teatro, projetos diversos e, especialmente, aqui no PorQueNão?. Sanitarista de formação, ecossocialista por opção e vegana por ideologia, feminista e engajada, o que não falta é tema para redação. Acredito que escrever é um ato político e que atuar pode transformar o mundo.

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