Produzindo alimentos com alegria e paixão: entrevista com Ronaldo Wolf

by | 8 Fev 2019

O Ronaldo Wolf é o agricultor da CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura) Verde Que Te Quero Verde.

 

Já falamos aqui de CSA e da visita ao sítio do Ronaldo. Todas as quartas-feiras eu saio de casa feliz, com as minhas sacolas na mão, e vou ao nosso Ponto de Convivência para pegar a cesta da semana*.

Lá a gente bate um papo no qual eu aprendo cada vez mais. O Ronaldo pode não ser de falar pelos cotovelos, mas tem muitíssimo a dizer! Tanto é verdade, que resolvemos compartilhar esses conhecimentos com você.

PQN? – Ronaldo, pode contar um pouco de você, sua família, seu sítio?

R – Meu nome é Ronaldo Wolf, sou paulista, nascido na cidade de Cordeirópolis. Sempre gostei da atividade no campo, inclusive fiz escola agrícola a partir dos 12 anos. Sou casado há 10 anos e temos uma joia preciosa de 5 aninhos.

O plantio em Brasília começou com o avô da minha esposa, Ricardo Auler, em uma época em que nem se falava muito em orgânicos. Mais tarde meu sogro, Benedito Auler, decidiu cultivar uvas no cerrado. E deu certo! Foi dele a ideia de certificar a nossa produção.

Desde que eu e minha esposa mudamos para Brasília passei a cuidar de toda a produção dos sítios. Juntos, meu sogro e eu resolvemos diversificar a produção de orgânicos.

PQN? – O que mudou na sua vida, e na sua produção, quando se tornou membro de uma CSA?

R – Para nós a CSA agregou em muitos aspectos: em primeiro lugar, o fato de ter contato com as famílias, conhecer as pessoas que comem a nossa produção. Nasceu uma afeição com o grupo, e principalmente com as crianças, que fortaleceu imensamente nossa responsabilidade e a vontade de continuar seguindo o caminho que entendemos ser correto para a saúde de todos e para o meio ambiente.

É muito gratificante entregar alimentos mais limpos e saudáveis à estas famílias! Também estreitou a relação de confiança entre o agricultor e os coagricultores, além de ter trazido uma segurança maior para cultivar diversos alimentos, sabendo que as famílias dos membros da CSA os aguardam.

PQN? – Quantas famílias trabalham com você, e como ingressar na CSA impactou nelas?

R – Três famílias trabalham conosco no sítio. O grande impacto na vida desses agricultores foi o conforto de poder produzir sabendo que a colheita terá destino certo. Uma garantia de emprego e renda para as famílias, o que traz muita tranquilidade.

PQN? – As pessoas que participam de uma CSA como coagricultores recebem semanalmente uma cesta de legumes e frutas orgânicos, por um preço abaixo do mercado. é essa a principal importância de uma CSA?

R – O custo é também um fator relevante; talvez não seja o principal, mas com a quebra dos grandes ciclos de distribuição impostos pelas cadeias de mercados o produto chega não só mais barato aos coagricultores, como também muito mais fresco.

Não obstante, a CSA traz dois outros valores agregados fundamentais:

– o primeiro é a CONFIANÇA de que o produto consumido é de fato orgânico. Na CSA Verde Que Te Quero Verde organizamos constantemente visitas ao sítio e comunicamos aos coagricultores decisões e técnicas de cultivo, assim todos podem saber com segurança que não estão consumindo produtos que receberam agrotóxicos. No ponto de convivência, bem como na feira de sábado do Restaurante Girassol, eu fico pessoalmente disponível para conversar, trocar ideias e explicar como foi plantado cada alimento. A pessoa leva para casa um vegetal que foi recém-colhido, e mais, por aquele cara que está lá na frente dela, conversando com ela. Isso é tão diferente de comprar algo em uma gôndola de supermercado, que nem consigo explicar;

– o segundo, e não menos importante, é o fato de que os coagricultores têm a oportunidade de contribuir para preservar o meio ambiente, o solo, a água (lençóis freáticos), a natureza como um todo. Mesmo sem deixar o trabalho na cidade, mas com um olhar de respeito e gratidão para com o campo, de onde provem seu alimento; cuidando da terra que deixaremos para os nossos filhos e netos. Mesmo sem fazer esse trabalho diretamente “mão na massa” com o solo, os coagricultores participam de forma indireta, cooperativamente.

Então, além de preservarem o planeta, eles fazem parte de uma forma de economia justa, solidária, respeitosa a quem produz o alimento. Acredito que essa energia boa é parte integrante do alimento, a pessoa que come o vegetal produzido assim ganha no preço, no fato de não consumir nenhuma espécie de agrotóxico, na satisfação de ajudar a sustentar famílias de agricultores, na preservação da Terra onde vivemos e deixaremos nossas sementes, as futuras gerações.

A cesta desta semana:

Alface crespa, americana, couve, couve crespa (kale), brócolis ramoso, chuchu, mandioca, couve flor, alho poró, milho verde, salsa e cebolinha, cenoura e rúcula. E mais um tanto de babosa, erva doce e ora-pro-nóbis para quem quiser

PQN? – Como você decide o que será plantado, e portanto entregue aos coagricultores?

R – Ao longo desse tempo que participamos de CSA, recebemos o feedback dos coagricutores, entre outras demandas. Assim, procuramos produzir o que as famílias consomem com maior frequência, agregando itens específicos para que não falte na cesta. Além disso plantamos os produtos conforme sua sazonalidade e clima para termos variedades nos produtos entregues.

Nosso foco é garantir a presença, na cesta, dos alimentos que as famílias costumam comer todas as semanas, como alface, couve, cheiro-verde e outros; além disso procuramos ter sempre os vegetais que costumem receber maiores doses de agrotóxicos, e ao oferecermos esses produtos 100% orgânicos consideramos que estamos oferecendo algo muito relevante. Os tomatinhos e morangos, por exemplo, fazem o maior sucesso entre os coagricultores.

PQN? – Nota da entrevistadora: esqueça o que você conhece por morangos, ou tomates. Os nossos, da CSA Verde que te quero verde, são outra história: ligeiramente cítricos, saborosos, suculentos 

R – Utilizamos técnicas variadas, sendo algumas da agricultura biodinâmica, como seguir as fases da lua para a semear, irrigar e colher o alimento, A semeadura se dá na lua nova, quando a energia da semente está interiorizada. A planta brota na lua crescente, atinge sua plenitude na lua cheia, e descansa na minguante. A colheita é realizada de manhã, por volta de 10 horas, ou de tarde, próximo das 16 horas. Enfim, praticamos uma agricultura de base ecológica que nutre um profundo respeito pelo ser humano, meio ambiente e todas as formas de vida. O resultado é oferecermos uma alimento cheio de energia, que faz bem para a saúde das pessoas e do planeta.

Saiba mais sobre agricultura comunitária aqui:

Luciana Sendyk

Escritora

Escrevo livros (autorais ou de terceiros), textos, anúncios, sites, blogs, peças de teatro, projetos diversos e, especialmente, aqui no PorQueNão?. Sanitarista de formação, ecossocialista por opção e vegana por ideologia, feminista e engajada, o que não falta é tema para redação. Acredito que escrever é um ato político e que atuar pode transformar o mundo.

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