Entrevista com Isabel Campos Salles Figueiredo a respeito de saneamento rural.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD), de 2015, mais de 60% das residências rurais não possuem tratamento adequado de esgoto. Os problemas enfrentados para universalizar o acesso ao saneamento rural  vão desde os altos custos para a implantação até a operação e manutenção dos sistemas de abastecimento de água e tratamento de esgoto.

Buscando solucionar essas questões é que surgem novas tecnologias e hoje vamos falar sobre uma dessas novidades que podemos usar no meio rural.

Você já ouviu falar da BET (Bacia de Evapotranspiração)? Esta tecnologia é utilizada para o tratamento do esgoto que sai da privada. A BET funciona com a ajuda de bananeiras e taiobas, que retiram o excesso de água do esgoto através da sua transpiração, facilitando o resto do processo ao diminuir muito o volume do esgoto que deve ser tratado. Além de tratar o esgoto, a BET também reutiliza materiais na sua construção, dando um ótimo destino à pneus velhos e entulhos.

Para saber mais sobre a BET, entrevistamos a pesquisadora Isabel Campos Salles Figueiredo para conhecermos o projeto Saneamento Rural que a UNICAMP desenvolve em Campinas.

 

Danilo: Por que nem o setor público nem o privado conseguem executar projetos em maior quantidade no meio rural?

A zona rural de Campinas, como a do Brasil todo, sofre pela ausência de políticas públicas e iniciativas de implantação de obras e serviços de saneamento. Saneamento adequado é um direito da população e um dever do Estado. No entanto, o que observamos é que na ausência de serviços adequados, cabe à própria população decidir sobre o seu tratamento de esgoto e o abastecimento de água. Os desafios para a universalização do saneamento na zona rural são enormes: vencer grandes distâncias, achar tecnologias simples e eficientes, envolver as populações locais, fazer a gestão e manutenção adequadamente, implantar serviços com preços justos. Para o setor privado, a prestação de serviços para estas áreas muitas vezes não se mostra lucrativa. Para o setor público, as grandes dificuldades e um corpo técnico pouco qualificado são barreiras importantes. No entanto, o Programa Nacional de Saneamento Rural (PNSR) está avançando muito nessa discussão e há municípios que estão trabalhando duro para a resolução deste desafio, como é o caso de Holambra-SP.

 

Danilo: O que é BET e como ela funciona?

A BET (ou Tevap ou Fossa de Bananeiras) é um sistema ecoloógico de tratamento das águas de vaso sanitário que foi aperfeiçoado por permacultores no início dos anos 2000 à partir de um sistema conhecido como Watson Wick. A BET trata o esgoto à partir de dois processos: a digestão aneróbia e a evapotranspiração. Quem faz o tratamento do esgoto mesmo são bactérias que ficam alojadas dentro do sistema, aderidas ao material filtrante (entulho, brita, areia). Nessa transformação biológica, cerca de 80% da matéria orgânica é degradada. O efluente tratado então é absorvido pelas raízes de bananeiras e taiobas, que utilizam a água e os nutrientes como adubo. O solo também é responsável por parte da perda de água do sistema. O resultado desses processos é o tratamento do esgoto e o sua transformação em biomassa e água pura. Fizemos uma cartilha que dá mais informações sobre como construir uma BET.

Acesse a cartilha e mais materiais de estudo nesse link: https://drive.google.com/drive/folders/0B5CTCnTWSw-caERiRkVyRGxMOTA

 

Danilo: Quais os maiores problemas identificados no saneamento rural de Campinas?

O projeto Saneamento Rural fez um diagnóstico bem detalhado em campo e o que observamos em relação ao tratamento de esgoto é que a grande maioria das casas faz a separação natural entre águas cinzas e águas de vaso sanitário. Isso é muito bom pois facilita o processo de tratamento do efluente e possibilita formas de reuso indireto. Outra realidade observada é o grande uso de fossas rudimentares ou negras, sistemas que são construídos segundo uma sabedoria tradicional da população, e que vem sendo implantados há muito tempo. Esta é uma realidade muito comum no país, e que carece de mais pesquisas, pois nem sempre a fossa negra é a grande vilã.

 

Danilo: Como que a BET mudou a realidade dos produtores da região?

Implantamos uma BET no sítio do Sr Nestor Teatin e família. A família acompanhou toda a instalação do sistema, participou da sua construção e ainda nos apoia com a pesquisa no local. O sistema foi escolhido para o local pois o lençol freático da região é muito baixo (água brota em buracos de menos de 2,00m de profundidade) e o risco de contaminação do poço caipira era muito grande. A BET está funcionando muito bem, com alta eficiência, e desde a sua implantação, não foi gerado nenhum efluente. De quebra a família e vizinhos já colheram e consumiram taioba e as bananeiras estão se desenvolvendo muito bem. A família já plantava banana na área anteriormente.

 

Danilo: O que você diria para as pessoas que se preocupam com o acesso universal ao saneamento no Brasil?

O acesso ao saneamento garante não só a promoção da saúde da população, mas também a salubridade ambiental local. Se o saneamento rural ainda tiver como proposta tecnologias do ecossaneamento ou saneamento ecológico, mais um benefício é gerado: o aproveitamento da água e dos nutrientes do esgoto, e de outros produtos como o biogás. O esgoto pode então a ser uma fonte de riqueza e não um problemão. Mas para que a universalização seja feita de forma eficiente, é necessário envolver as pessoas e comunidades, pensar em tecnologias adequadas, e garantir a gestão dos sistemas. O projeto Saneamento Rural da UNICAMP tenta colocaborar com a geração de conhecimento nessa área.

Para mais informações sobre o projeto acesse a página no Facebook: https://www.facebook.com/SaneamentoruralUNICAMP/