Tem água para todo mundo?

by | 22 Mar 2019

Água: esse recurso tão abundante no nosso planeta azul que parece que nunca vai acabar.

Quando lemos alguma notícia sobre pesquisas espaciais, podemos perceber uma intensa busca por vestígios ou indícios da presença de água em planetas. Isso acontece porque “sem água, nenhuma forma de vida como a conhecemos poderia existir”. Nesse sentido, penso eu, que se nós, enquanto formas de vida, déssemos a devida importância a esse fato, nossa relação com esse recurso tão precioso e necessário, seria muito diferente.

O nosso planeta é grande, com uma pluralidade de povos, culturas, climas e níveis drasticamente diferentes de desenvolvimento. Logo, eu jamais poderia afirmar que todas as pessoas no planeta têm a mesma relação com a água. Por exemplo, a relação que um brasileiro tem com a água certamente é bem diferente da relação que um libanês tem (aliás, nem mesmo entre os brasileiros a relação com a água é igual). Entretanto, vemos alguns padrões se repetem há tanto tempo, que nem nos questionamos mais sobre os hábitos que desenvolvemos.

 

A ESCASSEZ, O DESPERDÍCIO E A NEGLIGÊNCIA

Imaginem se nós, brasileiros, tão privilegiados por termos abundância de água, fôssemos conscientes desse privilégio, e para preservar o recurso, incentivássemos, desenvolvêssemos e implementássemos tecnologias sociais a fim de melhorar o ecosistema. Que sonho seria, mas infelizmente, não é assim.

Apesar do Brasil ser um país com abundância nos seus recursos hídricos, é de conhecimento geral que há regiões no país que sempre sofreram com a falta de água, seja por distribuição ou falta de chuvas. No entanto, foi a partir de 2016 que a cidade de São Paulo foi conhecer a expressão “volume morto” – como disse o jornalista André Trigueiro. Mais do que nos atentar para as mudanças climáticas e para questionamentos sobre o consumo de água, a crise hídrica nos mostrou que, no Brasil, praticamente 40% de toda a água tratada é desperdiçada na distribuição, seja por vazamentos nas estruturas ou fraudes financeiras. Na prática, isso significa que: nós pagamos pelo tratamento da água, a água é tratada e fica potável para a distribuição, mas quase a metade vai, literalmente, pelo ralo, por conta de negligência. Sabemos que há uma dedicação grande de funcionários para que o quadro melhore e que temos pessoas sérias nesses setores, mas não podemos deixar de notar os números alarmantes de desperdício.

Esse aspecto fica ainda mais grave quando avaliamos os índices de acesso à saneamento básico. Inclusive, temos um ponto crucial: é IMPOSSÍVEL falar de sustentabilidade, levantar a bandeira verdinha, defender o veganismo, e não se importar com o saneamento básico. Principalmente quando metade da população do país não tem acesso à água potável, esgoto coletado e tratado. Eu sei que pode parecer óbvio e fica repetitivo, mas talvez a gente ainda não tenha aprendido devidamente o conceito a palavra BÁSICO. É o mínimo que deveria ser disponibilizado para uma pessoa viver dignamente, e isso é inacessível para quase metade do país.

Reportagem do Fantástico, exibida pela Rede Globo: https://bit.ly/2Oqx3fH

Além das diversas consequências geradas na população pela falta de assistência primordial, a falta de acesso ao saneamento básico gera um passivo ambiental imensurável. E apesar de muitas vezes essa associação entre saúde pública e meio ambiente não ser feita de forma direta, é notável que ambos estão conectados e são dependentes.

 

Mas não paramos por aí…

 

A nossa relação abusiva com a água ultrapassa as infraestruturas básicas de habitação. Essa relação perpassa hábitos, consumo, economia, políticas públicas e interesses internacionais.

Podemos observar como usamos a água no âmbito individual, e como usamos coletivamente: Lamentavelmente, utilizamos água potável para evacuar nossos dejetos, sujamos uma água limpa e pagamos para ela ser limpa novamente (sendo que 40% é desperdiçado); quando não há a coleta de esgoto, quando ela não é feita adequadamente ou quando o esgoto é coletado mas não é tratado, poluímos, rios, mares e lençóis freáticos, além de facilitar o contágio de inúmeras doenças e contaminações. Também podemos levar em conta a negligência com os licenciamentos ambientais e fiscalizações de barragens, considerando que em menos de quatro anos tivemos dois crimes ambientais absolutamente tenebrosos, que destruíram vidas e ecossistemas. Podemos elencar também a forma como produzimos e consumimos alimentos, utilizando monocultura extensiva (com uso de agrotóxicos – que poluem solo, ar, rios e lençóis freáticos – e métodos menos eficientes de irrigação) cuja boa parte da produção é destinada à criação de animais que, por sua vez, também consomem água. E ainda temos os métodos de produção de diversos produtos, consumidos de forma frequente e intensa por nós.

Infográfico desenvolvido e divulgado pelo PorQueNão?: https://bit.ly/2ukthef

Nesse contexto, ao mesmo tempo que temos empresas vendendo “água gourmet” retirada de geleiras do ártico, temos o índice de que casas urbanas ricas com água encanada tendem a pagar muito menos por litro de água em comparação com populações que vivem em condição de alta vulnerabilidade social.

E ainda, mesmo com as obviedades e os problemas paradoxais, queremos acreditar que teremos água o suficiente para continuarmos com nosso estilo de vida.

 

água a gente tem. e até é possível ter mais.

 

O questionamento que devemos fazer é se estamos utilizando nossos recursos hídricos de forma sábia e justa. Não tem água pra todo mundo ou não tem água para continuarmos a poluir e consumir, no ritmo e na intensidade que estamos fazendo isso? Será que estamos dando o devido valor à esse recurso tão importante? Será que estamos repensando hábitos e atitudes nocivos?  Acredito que há quem ainda resista à essas mudanças necessárias, mas também acredito que as necessidades vindouras vão impôr essa mudança de rumos. Não será um escolha, se quisermos continuar vivendo. E vai ser mais fácil, em todos os aspectos, se aceitarmos que precisamos reformar essas estruturas, hábitos e atitudes.

 

As pessoas não são más. Elas só estão perdidas. Ainda há tempo.
– Criolo

Apesar dos desafios diante desses fatos, somos seres dotados de uma imensa capacidade de adaptação e criatividade. Já existem diversas soluções para muitos dos problemas apontados anteriormente, vários implementados em grande e larga escala, no Brasil e no mundo. É uma questão de tempo e urgência. Nós precisamos, e precisaremos cada vez mais rápido, mudar nossos hábitos e questionar métodos. Precisamos e precisaremos relembrar que todas as formas de vida, como a conhecemos, dependem da água para existirem. Inclusive e principalmente nós.

E a despeito de não poder prever o futuro, de uma coisa eu tenho certeza: nós temos soluções muito mais eficientes e saudáveis, disponíveis. Podemos fazer muito melhor do que “tudo isso que tá aí”.

Texto escrito por Betina Aleixo e Viviane Noda.

Betina Aleixo

Designer ativista

Acredita que a comunicação é uma poderosa ferramenta para promover mudanças. Por isso, trabalha em diversas áreas da comunicação e encara essa profissão com muita responsabilidade. Integrante da equipe do PorQueNão?, designer freelancer e comunicadora ativista socioambiental.

“Eu sou muitas coisas. Ser designer é apenas uma delas”.

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