Qual é o objetivo mais fundamental da vida, seja ela humana ou não?

Essa certamente é uma daquelas perguntas seculares, que nem centenas de linhas de pensamentos seriam capazes de explicar. Porém minhas lentes de biólogo, mesmo que parcialmente, me fazem enxergar uma resposta objetiva, pelo menos para desenvolver a ideia que pretendo aqui: o objetivo fundamental da vida é se manter vivo. É comum ouvir que o objetivo último de todo ser vivo é se reproduzir, mas o que é gerar descendentes se não a forma mais eficiente encontrada para viver mais do que uma geração?

Mas o que é “a vida” ou “se manter vivo”? Agora calma, se tu acha que vou entrar numa filosofada louca fica tranquilis, bem que gostaria, mas não é o objetivo deste texto. Apenas para fins conceituais, entre as inúmeras definições e descrições de vida ou “ser vivo” dadas até hoje, sob diferentes óticas e argumentos, quando eu falo de “vida” estou me referindo a primeira coisa que, imagino, tenha passado pela tua cabeça quando leu:

“um organismo composto de subtâncias organicas organizadas em células, órgãos e sistemas fisiológicos que exercem funções coordenadas, que permitem que esses organismos interajam com o seu meio e outros de diferentes formas, gerando descendente.”

Tá, talvez tu não tenha pensado exatamente isso, mas quando tu pensa em ser vivo a primeira coisa que vem na tua cabeça é tu, uma galinha, um golfinho bonitinho, uma árvore, ou um tomateiro. Talvez alguém até tenha lembrado de uma bactéria, ou de um inseto (S2 especial pra quem lembrou do inseto). O que eu estou querendo dizer é isso mesmo, a vida é nóis, os bicho e as planta tudo, e as bactérias e os fungos e, atualmente, até os vírus! Mas o que essa “vidarada” toda tem em comum, além de serem lindas? Elas estão vivas e se esforçando pra permanecerem assim.

Situação essencial nessa de “se manter vivo” (sem ignorar tantas outras, mas que de momento não cabem aqui) é a obtenção de energia para que esses sistemas fisiológicos se mantenham em fluxo, exercendo suas funções e assim as interações dos organismos… Pra encurtar a história a partir daqui vou focar em nós, organismos heterotróficos, mais especificamente em nós Homo sapiens, que chamamos comumente essa “obtenção de energia” de “comer comida”. Então nós humanos, como a maioria dos outros seres vivos, ao longo da nossa história evolutiva passamos boa parte, ou a maior do nosso tempo indo atrás de comida para comer, ou de formas para se ter mais comida ou de passar menos tempo indo atrás dela. Há boatos de que tivemos algum sucesso nisso, e parece que foi assim que surgiu a tal da agricultura e das criações de animais.

Mas não paramos por aí, logo nem todo mundo tava na onda de plantar ou criar comida, assim diferentes formas de comércio foram surgindo pra que mesmo quem não produzisse pudesse obter (no caso comprar) comida, e assim algumas pessoas estavam produzindo a mais, para que outras pessoas comessem. Em seguida veio a tal da revolução industrial e com ela a urbanização, globalização, capitalismo, não necessariamente nessa ordem. Nisso as pessoas começaram a ter coisas mais importantes pra produzir do que alimento, até chegar ao ponto hoje de que existem mais pessoas que comem, do que as que trabalham produzindo comida.

Em pouco tempo o “ir atrás de comida” do ser humano passou a ser trabalhar para ganhar dinheiro e comprar comida. Isso pelo menos para a maioria das pessoas que terão acesso a esse texto por vias digitais, acredito eu.

Resumindo a história da obtenção de comida pelo ser humano, talvez até de forma superficial, mas nem por isso falsa, pode-se dizer que antes a gente corria atrás da comida, então descobrimos que podíamos criar a comida, em seguida que umas pessoas podiam criar comida pelas outras, e agora boa parte de nós corre atrás de uma coisa ($) que usamos para comprar essa comida e não precisar comprar nem correr atrás dela.

Por isso conclamo que todos larguem seus empregos e se juntem-se aos meus amigos e eu, para sair pelo mundo selvagem coletando, caçando e plantando nossa comida, como nossos ancestrais. Só cuidem pra não comer as frutinhas erradas que nem no filme “Into The Wild” (Na natureza selvagem). Todo mundo entendeu que é brincadeira, né gente? O objetivo aqui não é esse. É impossível ignorar todo o desenvolvimento sóciocultural, histórico e até filosófico que envolveu essa transição de coletores nos bosques para coletores de prateleiras. Além de todo o desenvolvimento e benefícios que obtivemos com isso.

O objetivo aqui é sim compartilhar uma reflexão sobre a evolução da relação humana com o alimento, pelo menos ao que diz respeito à obtenção deste. De onde a obtenção de alimento saiu da forma de vida para a forma de mercadoria, ou seja, mais um item de consumo. Pois, sim, hoje a comida é uma entre tantas outras coisas que compramos. E ao se misturar com a passagem do ônibus, ao sapato, a camisa, a mensalidade disso, a assinatura daquilo, a TV, a gasolina, a prestação da casa, a luz, a água, a 3g (ou 4g), entre tantos outros itens “indispensáveis” para a vida moderna, estar nutrido passou a ser só mais um aspecto que caracteriza o “estar vivo” na nossa sociedade (e aqui entra aquela filosofada que eu falei antes). Dessa forma é fácil entender a descaracterização e até o distanciamento que temos sobre a nossa alimentação hoje, pois a maioria de nós come diariamente, mas quando paramos pra pensar sobre isso? Assim fica fácil entender o advento de tantos distúrbios alimentares, da obesidade à desnutrição.

Comer produtos industriais com formulações químicas? Até é melhor, pelo menos a gente sabe com certeza o que tem ali, tá na embalagem: “glutamato monossódico”; a boa dose de veneno está presente, e se tiver transgênico? Tanto faz, nada mais é como antigamente mesmo.

Quem para pra pensar nas coisas que coloco aqui, se sente em meio a uma crise, e estamos numa mesmo. Aqui eu falo sobre uma crise alimentar, e para muitos de nós não se trata nem de uma crise de falta de alimentos, nós só simplesmente perdemos o contato e o significado mais fundamental que a comida deveria representar para nós, a manutenção da vida.

Porém, sempre em meio à crise surge o novo. Quem já leu o Ponto de Mutação sabe que a cultura emergente sempre surge no seio da crise, e é aqui que entram os movimentos de contracultura. É aqui que surge alguém querendo escrever e alguém querendo ler sobre essas coisas. É aqui que surgem pessoas criando um site sobre como nos alimentar melhor. Surgem pessoas olhando e comendo plantas que não se comia há tempos, pessoas plantando hortas nos terraços da metrópole, desenvolvendo ou resgatando tecnologias consagradas pelos nossos ancestrais, que mesmo com novos nomes (agroecologia, permacultura, agricultura orgânica), nada mais são do que o ser humano criando sua comida, se responsabilizando por ela.

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Escrito por:

Mateus Raguse | Biólogo em construção

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